Ao que parece, Deus sabe muito bem que minha mãe e eu sempre cuidamos dos animais abandonados que aparecem à nossa casa, e os manda diretamente para lá. Considerando o fato de que somos espíritas, o panorama fica ainda mais fechado, porque acreditamos mesmo que Deus os manda, então cuidamos por amor e também por um certo sentimento de obrigação. Volta e meia surge um gato ou um cachorro faminto, de alimento ou de afeto. Saciados, geralmente seguem seu rumo. Alguns mais insistentes, porém, acabam sendo incorporados à família.

O CASO ATUAL
Há dois dias, estávamos eu e ela tomando café da manhã, quando ouvimos nosso cachorro uivar de uma forma como nunca havia feito. Tomada de estranhamento fui ao portão ver o motivo da manifestação incomum e então me deparo com ele, o cão misterioso, erguido sobre as duas patas traseiras, tentando enxergar alguma fatia de realidade da casa por uma fresta, no meio do portão. Desde então, é este o seu endereço. Pois sim: a calçada da nossa casa.

Não é para menos, diriam os não-amantes dos animais. Minha mãe o alimenta (e quem consegue dormir sabendo que há um ser vivo faminto à porta, quando há comida em abundância do lado de dentro?) e ontem, vendo a discrepância entre meus cachorros bem acomodados na varanda, e ele, totalmente ao relento na calçada, não me contive em lhe construir uma “casa” simples de folhas de papelão. Certamente, se você é um dos que não conhece a dominadora sensação de compaixão pelos bichos, deve estar pensando indignado que é preciso somente que nós deixemos de o alimentar para que se ele mude para outras freguesias. Ora pois, e com que cara nos poríamos à frente de Deus?

Apesar da nossa humilde contribuição franciscana, qualquer um que conheça um pouco nossa rotina doméstica, é capaz de notar que o cão tem nos deixado aperreadas. Olhando fundo em nossos olhos é possível ver a angústia de quem quer, mas absolutamente não sabe o que fazer. Somos cinco adultos, um bebê, outro para chegar, dois cães, vinte e quatro galinhas e uma criação esporádica de guaiamuns quando a lei permite numa residência que ocupa não mais que um lote. Como agregar mais alguém? Como vê-lo ali, todos os dias, e não agregar?

Não bastassem as complicações de ordem prática, paira ainda sobre nossas cabeças a parte transcendental do problema: ó meu Deus, vós que sois onipresente, de onde – por favor lhe rogo resposta – de onde veio tal cão? Ainda no primeiro dia de sua existência em nosso universo, eu disse a minha mãe em tom jocoso: “Ele deve ser a reencarnação de algum cachorro nosso que morreu.” Talvez não seja surpresa que hoje – depois de ele ter me seguido até o ponto de ônibus, lançando-me um olhar absurdamente sofrido e familiar quando eu finalmente embarquei, deixando-o só – eu passe a considerar a hipótese à sério. E se, por um lado, isso alivia a minha necessidade insana de explicar o fato, por outro, cria um problema de ordem até semântica, eu diria: e se nós não o agregarmos, tendo ele já sido membro de nossa família antes, não seria o mesmo que o abandonar?

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