Todos os dias ao deitar eu me agarro ao leão de pelúcia, como se estivesse me agarrando a Miguel. Todos os dias, antes de ir para o trabalho, eu me despeço do leão, cheirando seu focinho ainda com o leve aroma de bebê que veio da loja, como se estivesse deixando Miguel em casa. Quase esqueço que Miguel vai comigo. Para todos os lugares.

Simulo com o leão recém-adquirido a resolução de um problema filosófico para o qual não tenho outra pista. Miguel-ser está dentro de mim. Miguel-consciência onde estará?

Na minha fantasia de mãe-vir-a-ser, está no leão de pelúcia, que fica na cama, cuidadosamente coberto por mim antes de sair para o trabalho diário. Cubro o leão-consciência-Miguel, como fazia com os bichos de pelúcia da minha infância, nessa época, sim, filhos meus de verdade.

Às vezes está também na primeira e única roupinha comprada. Verde e aveludada. Quase todo o tempo, vazia. Exceto quando a tiro da sacola e vejo com olhos líricos Miguel, todo inteiro, dentro dela. E então abraço, beijo e cheiro Miguel-consciência, agora todo pomposo em sua veste verde-água.

Em vários momentos do dia, Miguel-consciência, porém, toma consciência da gente que é, e assume seu posto com impressionante alteridade. Conjuga a vontade que existe – na verdade – independente da minha, com a força de sua porção ser e passa a chutar-me a barriga. Fá-lo, no entanto, com tanta graça, que me parece que faz apenas para dizer que está aqui e não mais apregoado às coisas inanimadas onde minha carência insiste em o colocar.

Digo, então, em pensamento: – Perdoa a mamãe, filhinho. É que é tamanho o medo de que um dia saias e nunca mais voltes, que te agarro como posso, ignorando teu legítimo – ainda que precoce – instinto libertino.

Dizem dos filhos que devemos criá-los para o mundo. Só não dizem que é possível sofrer da carência antecipada deles desde quando seu mundo físico resume-se à nossa própria barriga. Também pudera: mesmo que o mundo-ser de um outro ser esteja todo ao nosso alcance, nunca poderá se dizer o mesmo de seu mundo-consciência. E como prever o que fará de seu mundo um bebê, com o infinito inteiro pela frente?

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