O meu problema com a terapia é que eu realmente faço coro com a afirmação de que problemas psicológicos só são realmente problemas quando você oferece risco para você ou para os outros. Aquela coisa: de perto ninguém é normal. É claro que todo mundo tem angústia e é legal botar pra fora com alguém que supostamente compreende melhor essas coisas do que os outros. Mas daí você me responda: e se todo mundo fizer terapia e nenhum ser humano no mundo tiver mais assunto mal resolvido, que graça vai ter? Então, eu fui fazer terapia não para ser ajustada em nada. Eu só queria entender melhor porque eu sou assim como eu sou e ajo da forma que eu ajo e mudar se eu quiser, não porque eu preciso.

Já o meu problema com o meu terapeuta é a velha diferença ideológica que, basicamente, é o meu problema com todo mundo que eu tenho um problema. Pra começar, ele era pastor até poucos meses atrás e ainda é evangélico praticante. E isso significa que, na verdade, não importa quantos pacientes gays ele tenha, no fundo, no fundo, ele acha que ser gay é pecado. E mesmo que ele seja profissional e “separe” uma coisa da outra, ele vai continuar achando isso e ninguém é capaz de se fragmentar tão bem a ponto de nunca se deixar influenciar pelas próprias opinião. E aí, em tenho certeza que quando chegar uma senhora lá querendo que ele “cure” o filho dela da homossexualidade, mesmo que ele diga “-mas minha senhora, não é assim que as coisas são”, no fundo, no fundo, ele vai acabar sentando o menino na poltrona pra investigar se ele não ganhou uma boneca de presente de aniversário ao invés de um carrinho e , pimba!, “o que falta minha senhora é referência masculina. Seu marido fica em casa tempo suficiente?”

Em segundo lugar, eu acho que eu errei de linha. Mas eu não entendo lhufas desses pormenores. Já me disseram que eu preciso de alguém que seja esquizo, guattarista, mas tô aqui amarrada num comportamental. E ele já me disse mais de uma vez uma dessas babaquices “evolucionistas” de que “o homem tem o sexo exposto e, herdando um comportamento de 5 milhões de anos atrás, ele é o caçador e a mulher é a caça”, e a conclusão disso é que eu preciso domar um pouco essa minha mania de caçar, porque, ó, eu sou menina. Ah vá, né. Nem sei pra quê ele fala essas coisas se sabe que sempre acaba em briga.

Em terceiro lugar, ele compra tudo o que eu digo. A única sacação que eu acho que ele conseguiu fazer a meu respeito é que eu vendo a ideia de que sou super segura, mas no fundo eu sou super carente. Mas vamos combinar que eu sempre soube disso, era só perguntar. Mas não vamos tirar seus méritos: eu escondo coisas dele, então, parabéns por ter sacado. Ele sempre bate na tecla de que eu uma pessoa encantadora, com uma puta auto-estima, mutíssimo bem-humorada, absolutamente segura das minhas opiniões, e extremamente teimosa. Mas se fosse pra ele me dizer o que todo mundo vê em mim, eu não precisava pagar. Então, eu continuo jogando o jogo. Sem facilidades. Porque eu quero que ele faça o trabalho dele e desarme esse teatro aí. E me diga: “Pára de fazer piada. Não é legal ver o cara que você gosta com outra. Só gente desequilibrada acha isso divertido. Pode admitir que isso te machuca.” Sério. Eu tô pedindo muito?

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