Aquele era o lugar pra onde ela costumava fugir. Fugir para dentro, veja bem a contradição: correr rápido e direto para o olho do furacão. Era como entrar na boca do monstro. Escorregar entre seus dentes, descer pela sua garganta, até chegar ao estômago. E então ver que por dentro, o estômago que o monstro tinha era igual a qualquer outro estômago. Assim como mucosas são sempre mucosas, unhas são sempre unhas, músculo estriado é sempre músculo estriado seja você Madre Tereza ou Hitler. E é aí que a gente pega o monstro. Ela acreditava muito nisso: que monstros se matam de dentro para fora. O que precisa é ter coragem para entrar.

Porque por fora não tem essa de Madre Tereza e Hitler serem iguais. Os dentes do monstro são horríveis! Grandes, afiados, amarelos. Exalam um odor putrefato. E o monstro, é claro, não dorme nunca. Por 24 horas (ou sabe-se lá qual a convenção de medida do tempo na realidade dos monstros), ele brada e convulsiona de raiva, com olhos vermelhos saltados. Às vezes, quando se está muito longe, parece que o monstro está quieto e cai-se na ilusão de que é possível conviver com ele assim: a gente longe, ele quieto. Balela. Monstro nenhum fica quieto, é só a gente que não enxerga direito. Alguns bradam menos, outros bradam mais, mas não tem jeito: todos bradam.

Até um dia em que você fecha os olhos, tampa o nariz e corre em direção ao monstro. E dentro dele descobre que dentro dele, assim como fora, tudo é feito de matéria básica e a questão, na verdade, é como essa matéria específica foi parar ali. Mas é fato que só descobrindo pro monstro parar de bradar.

Feliz 2011. Uma boa corrida pra mim. De novo.

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