John Lennon disse em uma de suas canções memoráveis: “A mulher é o negro do mundo.” Tente pensar em uma minoria que sofre discriminação seja em países pobres ou ricos, em lugares onde a maioria da população é negra ou branca, e mesmo entre seus pares, e você certamente reconhecerá que a maior minoria do mundo é a mulher.
Hoje, querem nos fazer acreditar que conquistamos tudo: podemos trabalhar (ainda que recebamos menos que os homens na mesma função e que tenhamos que cumprir jornadas duplas e triplas, para não “descuidar da casa”); podemos desfrutar de nossa sexualidade livremente (ainda que sejamos taxadas de “vagabunda” quando fazemos isso); podemos até nos candidatar a um cargo público (ainda que nossa representatividade na câmara dos deputados seja de apenas 9%, apesar de sermos mais de 50% da população), e muitos outros exemplos não faltam.
Na eleição de 2010 tivemos um cenário único: foram duas as candidatas a presidência da república, uma com chances reais de se eleger e a outra tendo ganho cerca de 20% dos votos da população. É impossível não enxergar as vantagens desse cenário.
Acho engraçado as mulheres que dizem que não faz diferença os políticos serem homens ou mulheres. Por que então, a Lei Maria da Penha, que coíbe a violência doméstica, só foi aprovada em 2006? Não te parece um absurdo que antes disso, muitas mulheres agredidas por seu companheiros tinham que recebê-los novamente em suas casas, por falta de amparo legal? Não te parece mais do que coincidência que alterações como essa que beneficiam as mulheres, aconteçam assim tão tardiamente no Estado brasileiro, composto majoritariamente por homens?
Homens não apanham diariamente de suas companheiras. Homens não são brutalmente estuprados por mulheres. Homens não são levados pelo desespero e desamparo a fazer um aborto clandestino. Nenhum homem, por mais feminista que seja, entenderá questões como essas em sua total dimensão da mesma forma que nós, mulheres.
Não estou dizendo que bons homens públicos não possam empreender boas políticas que garantam que homens e mulheres tenham efetivamente direitos iguais. Mas faz parte da concretização desses direitos que existam mulheres na vida política em número pelo menos igual ao de homens. E é nossa função como cidadãos, e como mulheres com mais ênfase, contribuir para isso.
Muito já discuti sobre as vantagens da candidatura Dilma Roussef, do PT, nos mais variados setores, agora gostaria da atenção de vocês para a causa que me é mais cara: os direitos das mulheres. Nesta quinta-feira, dia 28 de outubro, tivemos um exemplo claro da postura de um de nossos candidatos, com relação a nós.
Em um comício em Uberlândia, José Serra, do PSDB, finalizou sua fala com a seguinte afirmação:
– Quero me concentrar agora no que vamos fazer até domingo. Temos que não apenas votar, temos que ganhar voto de quem está indeciso, voto de quem não está ainda muito decidido do outro lado. (…) Se é menina bonita, tem que ganhar 15 (votos). É muito simples: faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que vai ter mais chance quem votar no 45.
Como foi bastante comentado na internet, José Serra, como um cafetão, acaba de inaugurar mais uma forma de fazer política: a prostituição eleitoral. São tantos os preconceitos numa única frase que vamos dividir por pontos: 1º Somente mulheres bonitas têm pretendentes. As feias não. 2º A maior arma das mulheres é mesmo a beleza. É possível conseguir até voto com ela. 3º Mulheres não são capazes de persuadir com ideias alguém a votar em um candidato. Por isso, sua contribuição para a campanha é apelar para o sexo. 4º Mesmo que se prostituir por dinheiro seja uma prática largamente condenada, é perfeitamente aceitável que mulheres rifem seu afeto por votos. 5º Obviamente homens bonitos não foram citados porque, afinal de contas, os homens pensam e podem convencer as pessoas de outras formas.
Como um adendo, acho interessante salientar um outro conceito subentendido: para José Serra, apresentar boas propostas é um ponto obsoleto em uma campanha política. Pra quê apresentar-se como boa alternativa de governo? Se ele conseguir convencer umas 5 milhões de meninas bonitas a rifarem seu corpo a 15 homens pelo preço de um voto, os tucanos já podem estourar os fogos.
Para aqueles que podem achar que tal frase não passa de uma afirmação infeliz do candidato, aleatória, dita sem pensar, fica um lembrete: há tempos que José Serra é conhecido no meio jornalístico, por sua arrogância e grosseria com profissionais que fazem perguntas “impróprias”, especialmente quando esses jornalistas são mulheres. Isso pode se comprovar em seus momentos de fúria contra Marcia Peltier e Míriam Leitão, só para citar as mais recentes e que trabalham em veículos que não podem ser acusados de governismo.
Por outro lado, são patéticos e também numerosos os episódios em que Serra descaramente elogia os atrativos físicos de jornalistas. Ignorando por completo que as referidas profissionais mantém com ele uma relação de trabalho, e que conquistaram seus cargos por razões intelectuais, em uma função – o jornalismo – que nada tem a ver com suas atribuições estéticas.
Além desses exemplos, qualquer um que se dê ao trabalho pode encontrar outras tantas declarações machistas de nosso candidato. Até mesmo a apresentadora Xuxa, que nunca foi conhecida por seu engajamento político, já veio a público criticá-lo por uma “declaração infeliz” (e, coincidentemente, machista).
Concordo em gênero, número e grau com a cientista social e blogueira Mary W., quando ela diz que votar em Serra é “puxar o freio de mão” do bonde feminista que está passando no Brasil neste momento. E passo a bola para minhas amigas mulheres e meus amigos homens de bem de verdade: e então? Queremos mesmo eleger alguém que é incapaz de respeitar mais da metade da população brasileira? Queremos mesmo um Berlusconi ocupando o maior cargo político de nosso país?
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