Estou com asco de toda essa discussão imbecil sobre o aborto. Cada vez que eu leio alguma coisa me dá vontade de socar o computador. Porque é imbecilidade pra tudo quanto é lugar que a gente olha.

A primeira imbecilidade é que agora parece que a eleição pra presidente virou uma porra de um plebiscito sobre aborto. Fazer um plebiscito sobre aborto já seria burrice (alou Marina), imagina então tranformar eleição presidencial em plebiscito sobre aborto. Desde quando maioria no Brasil dá conta de discutir questão sobre minoria? Se for jogar pro povão a gente perde todas: legalização do aborto, casamento gay… E não é porque o povão é burro e não sabe escolher, é porque ninguém do bem se dá ao trabalho de explicar as coisas direito, enquanto tem gente do mal super disposta a retorcer tudo.

Daí que espalharam por aí que a Dilma é a favor do aborto. Todo mundo da campanha dela achou que ia passar liso, mas daí domingo passado pan! Marina levou todos os crentes quase com ela. Por conta da boataria que a campanha do PT achou que não era nada. E aí agora a ficha caiu, e a primeira atitude da rede Dilmista é mostrar que aborto por aborto, José Serra quando era ministro normatizou uma série de procedimentos para o aborto no Brasil. Ou seja, um tiro no meio da minha testa doeria menos.

Porque não é essa a porra da questão. A porra da questão é que a Dilma já explicou duzentos anos atrás que não existe isso de ser a favor do aborto. Que praticamente todo mundo é contra o aborto em si, o que ela concorda é que isso seja tirado dp âmbito criminal e trazido para a alçada da saúde pública. Mas ninguém se deu ao trabalho de explicar pro povão o que isso significa. Ninguém se dá ao trabalho de mostrar pro povão que tantas mulheres morrem todos os anos por conta de aborto clandestino, o que significa que a proibição é ineficaz. Como nós sabemos que é inficaz? Porque não só as mulheres continuam fazendo aborto, como se dispõem a arriscar a vida por isso e MORREM. Que isso é tratar no âmbito da saúde pública: discutir o que o governo precisa fazer pra que elas parem de morrer.

E aí teve um fogo amigo dizendo a imbecilidade-mor do momento: Que a campanha petista errou ao se deixar pautar por feministas. Ou seja, cortar uma perna minha com motossera doeria menos.

Porque a gente não tem nada a ver com isso. As feministas não querem saúde pública, a gente quer autonomia. A gente quer direito de escolha sobre o próprio corpo. A gente quer uma lei que conceda à mulher o direito de decidir, e a gente quer um Estado que ofereça suporte àquilo que seja que ela decidir. A gente fica feliz com sáude pública, porque sabe que é o que tem pra hoje. Que já é difícil pro Brasil engolir isso por conta da porra do estado laico que não existe. Daí a dizer que as feministas que pautam é um pulo do gato tamanho extra-grande.

Outra coisa que eu acho incrível nessa história é que a gente comemora todo santo dia como a confiança do brasileiro no Lula demonstra uma mudança na forma de participação. A gente briga com com quem diz que PT compra pobre com bolsa-escola, e diz que não, que pobre vota no PT porque aprendeu que o voto pode garantir melhoria de vida e é voto consciente, portanto. A gente indigna com gente que sai por aí desclassificando eleitor e a gente tá fazendo a mesma merda. Achando que é só maquiar a polêmica que o eleitor vai comprar. Que a gente só tem que jogar o Serra aos leões evangélicos e a vitória vai cair no colo. E a cara não queima não?

Porque há diferentes tipos de ignorância, na minha opinião. Eu acho que gente com computador em casa e banda larga que recebe spam absurdo e repassa sem nem se perguntar se a mensagem faz sentido, é estúpida. Porque não é que a pessoa não saiba o que fazer pra confirmar o negócio. É que a pessoa fica tão eufórica ao ver uma mensagem bombástica que favorece o próprio candidato, que ela não se contém pra encaminhar. Eu acho mesmo que se você não tem predisposição por negócio você não encaminha. É igual mensagem auto-ajuda de powerpoint: só passa pra frente quem gosta da prática.

Já com a galera que ouviu essas mensagens dentro da igreja, o esquema é outro. Porque ela tá ali na frente de um líder e aconselhador, e se ele fala isso, há uma chance grande da pessoa seguir. Porque é disso que se trata a hierarquia religiosa. Volta e meia a gente topa com alguém que segue uma religião e contesta algumas coisas, mas você pode reparar que essas pessoas fazem isso geralmente porque encontram um outro referencial, que faz com que ela ponha as coisas na balança.

O problema é que ninguém quer ser esse outro referencial, ao que parece. Tá todo mundo aí se reunindo com pastor e mais pastor, padre e mais padre e reforçando essa desgraça desse sistema. Ao invés de falar diretamente com o povão e de usar a influência do pastor como reforço. Todo mundo subestimando a capacidade do povão de pensar, sem pensar que às vezes tudo o que se precisa é colocar os pingos nos is.

Vamos aguardar os próximos capítulos…

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