Ao contrário do que os meus tweets podem parecer demonstrar, eu não tenho qualquer problema com o eleitor da Marina. Na verdade, no campo pessoal, cheguei a estimular algumas pessoas a votarem nela já que não se agradavam da candidatura Dilma. Marina é 1 milhão de vezes melhor do que o Serra, além de ser mulher, o que importa muito pra mim nesse momento. Por uma questão simbólica mesmo.

Por outro lado, não deixo de achar que sua candidatura era bastante vazia. Um apelido “carinhoso” foi dado a ela pelo Paulo Henrique Amorim: Blablarina Silva. E eu, concordo, a princípio. Não acompanhei sua campanha de perto, nunca entrei no site de Marina para saber o que ela pensava, mas assisti a todos os debates e a uma parte considerável do horário eleitoral e eu não sei até agora o que Marina propunha. Não sei o que ela pretendia fazer caso fosse eleita. Sei que ela critica os problemas na educação. Sei que ela criticou os problemas na saúde. Sei que ela criticou a exploração insustentável do meio ambiente. Mas não sei o que ela propôs pra melhorar nenhuma dessas coisas. Ia fazer o quê? Construir mais escolas? Quantas? Propor lei ambientais mais severas? Quais? E desconfio que tampouco os eleitores que se juntaram a ela na última hora saibam dizer.

Agora sim, a gente chega na parte que eu não gosto a respeito dos novos eleitores da Marina. Tenho amigos que declararam voto nela desde o começo da campanha, e que fizeram manifestações muito interessantes para seduzir outras pessoas a entrarem na “onda verde”. Esses são os 10 a 13 por cento detectados pelas pesquisas. Conforme estou vendo analistas dizerem aqui e ali, e eu concordo, são principalmente três tipos de pessoas: ecologistas, que apostaram em alguém que colocou questões ambientais como prioridade; os que buscam renovação política, e viram em Marina alguém mais “ético” sem as marcas de corrupção do PT e do PSDB; os “moderninhos” que a fundo não são nem ecologistas, nem prezam tanto assim pela ética, mas também não tem outras convicções que os levassem para outras candidaturas, então ficaram com Marina, porque era o que tava na moda.

Todos os três votos são válidos pra mim, até mesmo o terceiro, pelo fato de que a gente não pode obrigar ninguém a ter interesse político também né. A gente se dói, e pode criticar, e tentar fazer a pessoa ter, mas não tem direito de cobrar né. Se o voto fosse facultativo no Brasil, vá lá, porque se a pessoa escolhe votar tem que se comprometer com o negócio. Mas como o voto é obrigatório, tem gente que não queria mesmo fazer parte da festa, então se já obrigam a pessoa a ir lá digitar o número, não dá pra cobrar que todo mundo faça consciente né.

Agora os eleitores de última hora me incomodaram mesmo. Primeiro, porque tiraram meu primeiro turno né. Minha vitória arrasadora da primeira mulher presidente. E eu sou egoísta. Segundo, porque ninguém pode negar que no fim das contas a onda verde serviu mesmo pra empurrar o Serra pro segundo turno e pra valorizar o passe da Marina. A primeira conquista foi uma bosta, e a segunda é tão efêmera quanto as próximas quatro semanas. Ou você acha que no ano que vem, alguém que tá eleito vai querer saber o que Marina pensa de Belo Monte?Terceiro, por que pelo menos 5 pessoas que eu conheço, que mudaram de voto de Dilma para Marina na última hora, o fizeram porque o pastor recomendou. SÉRIO.

Quer dizer, a pessoa não tá nem aí pra moblidade social ou pra redução da miséria. Não tem a menor ideia se quer empresa estatal forte, ou se acha melhor liberar geral pro mercado. Se prefere um sistema de saúde pública fortalecido, ou um mutirão que aparece na sua cidade de dois em dois anos pra fazer cirurgia de varizes. Se o filho vai ter Prouni pra poder fazer uma faculdade, ou se vai ter que enfrentar greve de seis em seis meses caso entre numa federal. E o pastor ao invés de fazer o seu papel enquanto líder de uma organização social, e explicar que as pessoas precisam se informar sobre essas coisas antes de tomar um posicionamento, porque isso diz respeito a como parte de suas vidas será gerida por seus representantes políticos, não: reduz uma eleição pra PRESIDENTE DA REPÚBLICA na porra de um plebiscito sobre aborto e casamento gay.

NÃO É UM PLEBISCITO SOBRE ABORTO, se alguém ainda não percebeu. Esse não é o único assunto em jogo, muito menos a única questão sobre a qual o PRESIDENTE DA REPÚBLICA pensa, desculpa enfatizar. Quer dizer que se o cara dissesse que é a favor da pena de morte pra todo mundo que tenha o sobrenome Nunes, ou sei lá qualquer absurdo, mas fosse enfaticamente contra o aborto e o casamento gay, o pastor ia mandar votar nele? Porque é o que parece. E pra piorar, parece que uma galera votaria!

Você pode dizer que todo grupo tem as suas questões-chave para defender e assim como eu, que sou feminista, defendo que é preciso votar em mulheres para aumentar a nossa participação nas decisões, os evangélicos podem priorizar quem é contra a legalização do aborto. A questão é que nós feministas queremos trazer questões públicas e civis para serem discutidas na esfera pública a civil. Já essa parcela do eleitorado evangélico insiste em fazer isso com questões religiosas. Isso é o que eu não admito nesse eleitores de Marina Silva de última hora, que foram os antigos eleitores de Garotinho e devem virar eleitores de Serra se a coisa continuar como está: essa insistência em impedir que o Estado vire laico de verdade.

Cês juram que querem os eleitores de Garotinho decidindo o destino do nosso país?

Obviamente, não devemos trabalhar com a demonização evangélica. Está claro que esse é um padrão de comportamento verificado, mas não representa a totalidade dos eleitores que professam alguma religião evangélica. Por isso que eu acho que o maior diálogo que deve ser feito até o dia 31 é esse: mostrar pra quem você conhece que está tendendo a votar no Serra pelos motivos citados, o que realmente está em jogo. Que por uma falsa tranquilidade numa questão que já está sendo discutida de forma errada, o Brasil inteiro pode ganhar um governo retrógrado em uma série de outras questões.

Já pra galera ecologista e ética, a abordagem pode ser outra: e aí verdes, vocês estão prontos pra dar aquele abraço na Kátia Abreu?

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