“Por acaso”, ontem, me reencontrei com o livro que você me deu. É que depois de lê-lo eu o atirei num canto qualquer da casa. Não queria olhar pra ele. Não queria dá-lo o privilégio (e a você, por suposto) de habitar a minha estante, ao lado de outros títulos tão caros. Não o queria perto do coração.

Então, passaram-se dois anos ou três e eu nunca mais o vi. Não que eu nunca tenha me questionado sobre onde ele estaria. Cheguei a procurá-lo algumas vezes, depois que o coração aquietou, na verdade. Sem sucesso.

Então, ontem, eu fui até a estante da sala, que eu não abro nunca porque não é lá que habitam meus livros. Estava a procura de um livro da minha mãe. A luz da sala estava apagada e, por preguiça, vasculhei a estande só com o auxílio da luz do celular. E foi quando o Calvino pulou na minha cara.

Sabe-se lá quem o encontrou abandonado pela casa e teve a sensata ideia de guardá-lo ali. Sabe lá quando. Só sei que o livro “inexistente” voltou para mim.

Decidi relê-lo. Por enquanto, não consegui transpor sequer a dedicatória. Mas aí, hoje, eu descobri que Calvino nasceu em Cuba. Militou no Partido Socialista Italiano. Escreveu O Cavaleiro Inexistente em 1959, quando já estava fora do partido. (Não entendi bem qual foi da briga.) Era libriano, o que talvez explique. OK, é o suficiente pra mim.

Também, há quem diga que a segunda vez é sempre mais esclarecedora. Em livros, filmes, (sexo?). Passa-se a emoção do ineditismo e você analisa. Então, fica combinado assim: em alguns dias eu digo o que eu acho do livro agora. Até porque vai ser bom dar um tempo na Clarice, antes que ela me absorva por completo.

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