Um dia alguém vira pra você e diz: “Largo tudo pra ficar com você.” É inevitável. Se você não for uma pessoa odiosa – ou mesmo se for, vai saber – esse dia também vai chegar pra você. Se já não chegou.

E isso seria uma coisa ótima não fosse um detalhe: pesquisas acadêmicas muito sérias comprovam que em 9 entre 10 vezes em que isso acontece, o interlocutor que ouve a declaração não quer que o intercolutor que fala cumpra o que promete. Ou seja: “Não faça isso!” é a frase mais pensada nesse momento crucial de nossas vidas amorosas.

Tirando esses 10% de exceção, a gente simplesmente não quer que a pessoa largue nada. Nem o cigarro que ela segura na mão, pra nos dar um abraço. A questão é que isso não significa que somente 10% das pessoas aceitam a proposta. E prestem atenção pra ver se vocês não concordam: não é todo dia que alguém se dispõe a abandonar a si próprio para ter a companhia de outrem pelo tempo que Deus prouver. Ouvir uma proposta dessa é o atestado de que não somente você não é uma pessoa abandonável, como você é alguém por quem outro alguém abandonaria tudo. Não dá pra dizer “não” assim tão fácil!

Claro que sempre alguém pode lembrar que aceitar tal proposta quando você não está disposto a fazer o mesmo pela outra pessoa é de um egoísmo atroz. E daí? Você, que levantou a questão, acha mesmo que a pessoa propõe tal coisa altruísticamente? Nada é altruístico no mundo dos amores, meus senhores! Nada! A pessoa que faz isso quer, como (quase) todo mundo, ser amada. É a última cartada. E muito eficaz, é preciso reconhecer, posto que por diversas vezes consegue virar um jogo perdido.

Se compararmos com um jogo de bisca, podemos dizer que a tática de “Queimar navios” é como o 7 de trunfo. Só perde (e feio!) para o Ás, também de trunfo: ele, sempre ele, o patético e inoxidável “Amor verdadeiro”. A carta que todo mundo começa o jogo torcendo pra ter, mas no fim das contas, só um entre quatro jogadores consegue. Uma carta engraçada essa, que tem poder mesmo na sua inexistência. Só a esperança de conquistá-la um dia já dota o jogador de incrível capacidade para derrubar todas as outras cartas de todos os outros naipes.

É. Acho que eu vou ali imaginar a minha.

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