Eu não sei em que momento exatamente o corte profundo entre você e eu aconteceu. Talvez tenha sido lento, mesmo. Mas aconteceu, nenhum de nós pode negar. E eu acho que você tá com medo de alguma coisa que eu não sei qual é, porque você diz que nunca vê quando eu ligo, mas você sempre liga de volta. Ontem não. – Alarme vermelho – Engraçado você fazer isso logo agora, que eu não queria nada de você. Só te desejar boa sorte. Que você consiga falar tudo o que você sabe. Que sua banca não te detone muito. Que eu acho que nem tem nada pra detonar na sua tese, porque você sempre foi competente pra caralho, não ia deixar de ser agora. Essas coisas e tal que eu ia te dizer. Te mandei uma mensagem de qualquer forma, porque eu acho babaquice essa coisa de fingir que não se importa pra ter controle e parecer superior. Babaquice. Eu quero que você se dê bem pra caramba na vida. Vo menti?

Mas, voltando ao corte. Acontece que a primeira vez que a gente ficou, nos idos de 2004, você disse que eu tinha “classe”. E eu garrei um carinho absurdo por esse elogio. Você sabe disso né, já falei zilhões de vezes. Porque né? Não é todo mundo que tem classe nessa vida. Mas, principalmente, porque não é todo mundo que pensa nesse elogio pra dizer pra alguém. Éramos dois incomuns. E de lá pra cá você sempre ficava numa surpresa desconcertante quando a gente se encontrava e eu achava isso o máximo. Porque você recebia cada atitude minha como um honra. Seu olhar validava o incomum em mim. Validava o incomum em você. O incomum se tornava “o especial”. E eu não conseguia imaginar mais ninguém no mundo nos nossos lugares, porque não faria qualquer sentido essa coisa sem nós dois no meio. Agora não mais. Você me olha comum, eu me sinto comum. Você pode olhar do jeito que você me olha agora pra qualquer uma e vai ter o mesmo sentido tudo.

E é estranho porque eu não sei o que eu faço com isso. Com essa queda de mais uma estrutura na minha vida. Juro pra você que ao longo desses seis anos, eu já pensei em vários momentos: “se ‘O Pontinho’ estivesse aqui, ele ia ver como isso é especial”. O seu olhar validava meu incomum mesmo quando você nem estava presente. E era bem disso que eu tava falando, sábado antes de a gente dormir, quando eu disse que você sempre foi contínuo e não alguém que morreu e ressuscitou. Você sempre foi estrutura e não ramificação. Você era estrutura mesmo quando eu não te queria nem pra ramificação. E eu bem aposto que você sempre acha que eu te quero para ramificação. Não. Eu seria capaz de querer você pelo resto da vida assim, sem nada “concreto”, se fosse pra nunca perder a estrutura. Mas confesso que fantasiei muitas vezes com as nossas linhas de fuga se encontrando em algum lugar no tempo-espaço, pra você poder ser estrutura & toda e qualquer remificação. Perdi.

O pior é que eu tenho uma porção de coisa que eu guardei pra dizer “em momentos mais propícios” e agora elas vão ficar aqui, presas na não-existência. Mas tem uma que eu acho que você merece saber: você me inspirou muito quando eu era mais nova. Porque você também era novo e já fazia tanta coisa importante com a sua vida, já pensava tanta coisa legal. Você, veja só, divide com gente como Negri e Lula, um pouquinho da responsabilidade pelo gérmen de esquerda que brotou em mim. Espero que você ache isso tão legal quanto eu acho.

P.S.: Enquanto eu escrevia isso, o pessoal aqui do trabalho tava dizendo que eu voltei meio murcha do Rio. Eu bem acho que eu já tava murcha no Rio, apesar de tudo ter sido ótmo. Você concorda?

P.S. 2: Resposta por scrap? Seriously?

Versão fofinha. Só pra te irritar.

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