Existe uma lenda que conta a seguinte história:

Há alguns anos, duas almas se encontraram no limbo. Elas estavam prestes a retornar ao mundo para mais uma vida, dentre tantas já vividas. Outras tantas por viver.

Encontraram-se com Deus, que disse: ” – Ainda têns muitas vidas pela frente. Podem experimentar outras coisas e se reencontrarem depois. Querem mesmo ir juntos novamente?”

“- Sim, Senhor”, disseram as almas em uníssono.

” – Tudo bem. E o que vai ser desta vez?”, perguntou o Senhor “- Posso arranjar-lhes dois amigos de berço. Que tal?”

Ao que a Alma 1 respondeu: “- Não Senhor, creio que já estamos prontos. Vamos como amantes.”

” – Mas já?”, espantou-se o senhor. “- Que acham de aguardarem mais uma vida? Dou garantia de que se encontrem. Mãe e filho. O que acham? Mãe e filho me parece perfeito!”

” – Não, Senhor” retrucou a Alma 2. “- Agradeço vossa complacência, mas assumiremos o risco.”

“- Mas pensem bem”, Deus argumentou. “- Se fores a mãe, Alma 1, serás mais fácil com teu amor fraterno lidar com o egoísmo que você, Alma 2, ainda precisa aprender a superar”

E continuou: “- E você, Alma 2, como filho terás por obrigação amar a Alma 1, mesmo em seus rompantes de cólera. Não parece uma combinação fortuita?”

As almas olharam-se por um instante, afinal estavam diante do Senhor de todas as coisas, a inteligência maior em todo o universo. Era natural que Deus estivesse certo. Deveriam as  almas ouvi-lo e abdicar de seu desejo mais intrínseco?

Foi quando elas se deram a mão e perceberam que não podiam mais esperar, afinal, o próprio Deus as havia criado para isso. Estiveram separadas por longas eras, é verdade. Muitas vezes encontraram-se por um melindre divino, mas sequer se reconheciam, tamanhas as imperfeições que tinham, tamanha ingenuidade animalesca que as impedia de compreender o amor.

Mas agora tudo estava diferente. Depois de muito lapidar-se, de encontrarem-se e desencontrarem-se, enfim perceberam-se complementares. Tinham como destino unir-se e crescerem juntas e, então, tornar-se um todo perfeito. Sabiam que não seria fácil. Já era possível entrever os desafios que encontrariam pela frente. E sabiam que haveria duas hipóteses: elas poderiam superá-los unidas, tornam-se almas mais puras. Ou poderiam deixar-se separar pelos reveses,  levando ao desperdício o trabalho de muitos séculos.

Mas, ao toque das mãos, tornou-se impossível ignorar a urgência que é própria do amor.

Alma 1 disse primeiro: “ – Não queremos desrespeitá-lo, Senhor. De modo algum retrucar tua imensa sabedoria”

Como pensavam uma só coisa, a Alma 2 complementou: “ – Mas pedimos tua benção, para assumirmos essa missão. E te damos fé de que, na hora em que tivermos que voltar aqui não estaremos com ela descumprida”

E assim, cada um se dirigiu a seu lugar. Seus ventres maternos, irmãos e amigos primeiros já haviam sido escolhidos, conforme outras virtudes que haveriam de conquistar. Bem como o dia em que viriam ao mundo, com alguns anos humanos de diferença, mas que não eram mais do que um sopro, no tempo celestial.

Soltaram-se as mãos confiantes de que Deus os compreenderia e arranjaria tudo para uni-las no momento propício, de acordo com a missão que se propunham a cumprir.

E Deus sorriu satisfeito, afinal sendo a única coisa perfeita no Universo, já sabia desde o princípio o caminho que as duas almas iriam escolher. Preparou para elas tempos difíceis, é verdade, mas somente o necessário para que pudessem crescer. Mas assegurou-se de que fossem rodeadas por muitas almas amigas, e que tivessem uma a outra sempre, para suportar as agruras, mas também para apreciarem juntos os momentos de sol.

E assim nascemos eu e você.
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