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A história é comum. A mulher vai para uma festa, bebe, transa (?) e se arrepende no outro dia. E daí, de sopetão, a gente pensa: a bebida passou, o moralismo bateu. Mas quanto desse sentimento de culpa é mesmo moralismo tardio, quanto é a consciência do abuso?

Por que para mim, que bebo, é bem fácil preconizar: há momentos numa bebedeira em que absolutamente não temos controle sobre o nosso corpo. E nesses momentos, por mais que uma mulher aceite um convite para o sexo, pode-se dizer que ela tem condições de aceitar?

Porque, como na maioria dos casos, a maioria dos homens enxerga simplesmente o próprio lado: a mulher bêbada é mais “fácil”. Quantas não são as vezes em que ouvimos brincadeirinhas e histórias de homens que estimulam mulheres a beberem para levá-las para cama? Pode não ser o mesmo caminho do estupro clássico, mas se uma mulher precisa estar bêbada para transar, podemos dizer que o sexo não aconteceu contra a vontade dela?

Duas coisas me indignam especialmente nesses casos: a normalidade com a qual eles são encarados e a tradicional inversão de culpa. Percebam que sempre que alguma mulher denuncia alguma agressão sofrida em um momento de bebedeira, já aparece a “patrulha da mulher no banco dos reús” pra dizer: “- A culpa foi dela! Quem mandou beber desse jeito? Quem mandou ir a uma festa cheia de homens? Quem mandou não ficar trancada em casa lendo a bíblia?” – Insira depois do “Quem mandou” a sua frase absurda favorita. –

Me indigna ainda mais porque poucos são os que pensam que há algo errado no comportamento dos homens. Se você se aproveita de uma pessoa bêbada para pegar-lhe o dinheiro, por exemplo, você comete uma falha grave de caráter. Porque não é interpretado da mesma forma quando um homem se aproveita de uma mulher bêbada pra fazer sexo com ela?

Ah sim, porque bêbados com dinheiro também podem ser homens, né. Já as mulheres… Ah, as mulheres que virem pessoas direitas e parem de sair por aí ingerindo alcool e interagindo socialmente. Como sempre, o perigo não são os outros. Somos nós mesmas, que não sabemos nos cuidar.

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