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Demorou para que eu me desse conta da polêmica gerada pela cena pico de audiência de Viver a Vida, da semana passada. Em resumo, há uma personagem Helena, interpretada pela Thais Araujo e há uma personagem Luciana interpretada pela Aline Moraes. Essa última, depois de uma briga com a primeira, sofre um acidente e fica tetraplégica. Helena se sente culpada. Na famigerada cena, a mãe de Luciana dá um tapa na cara de Helena, que está ajoelhada no chão, pedindo perdão. A mãe de Luciana é branca. Helena é negra.

Hoje recebi por e-mail dois textos inflamados. Um deles focava na cena: na suposta óbvia alusão à superioridade branca. O outro ia mais ao fundo: criticava a intenção furada da Globo de ter uma personagem principal negra, como que para adoçar a boca dos telespectadores, mas depois mostrar realmente a que ela veio.

E logo vieram os contrários, com o argumento mais batido de todos: a cena seria feita com uma protagonista negra, branca, oriental ou o que quer que fosse. E sempre alguém puxa a questão: por um acaso todas essas outras etnias são até hoje igualmente humilhadas, inferiorizadas, estigmatizadas, como a negra? E alguém puxa uma outra: por toda essa trajetória, uma representação qualquer de sofrimento impingido sempre vai ser uma alusão velada? E claro, tem a galera das frases de uma linha, que só inflamam, para ambos os lados.

Tudo causou-me uma certa surpresa, confesso. Primeiramente pelo fato de que eu vi essa cena e não pensei por nenhum desses dois lados. E me pego perguntando: sou racista ou obtusa? Estaria a representação da inferioridade da etnia negra tão intrínseca em minha formação cultural, que tudo isso passaria isento diante dos meus olhos?

Segundo porque não sei de que lado estou nessa história. Porque lembro-me muito bem de uma outra novela, em que Milton Gonçalves fazia um político negro e corrupto. E em uma entrevista ele disse que achava ótimo que o corrupto fosse negro, porque a docilização do negro em sua representação como “o bom homem” é tão prejudicial quanto o contrário.

O que me remete à bipolaridade esquizofrênica, de que Ivana Bentes fala. De um lado, o jornalistico, “real”: o pobre, e naturalmente, o negro como o morador da periferia, que representa o perigo, o ladrão que invade as casas da “gente de bem”. Do outro, o fictício, romântico: o pobre, e naturalmente, o negro, que é o trabalhador, feliz apesar da agruras da vida e que se esforça para manter a honestidade, apesar de todos os percalços. Convenhamos, ambos são deveras injustos.

Mas, não podemos negar que sempre há quem diga: “Tinha que ser negro, pra ser tão safado!”. Num outro prisma: “Nunca vemos um personagem importante negro, quando há, ele é corrupto?”. Frases que podem ser facilmente transcritas para o caso de Helena. E preciso dizer que não concordo com nenhuma das duas.

Porque, mudando a questão de lugar: interessa que todos os personagens negros sejam bons ou o que interessa é que eles sejam representados sem estigma? Não há como negar que a programação da tv brasileira praticamente não tem negros. Mas, se vamos dizer a forma como não queremos vê-los, acho interessante que alguém diga como queremos. Pra fortalecer o argumento, mesmo. Para dar algum viés à questão. Para que o conclame, que é urgente e justo, não se perca.

Update: Eu continuei lendo sobre isso por aí e lembrei de uma coisa que eu tinha esquecido de dizer: a violência – por si só – já não se justifica. Que tal parar com essa coisa de mostrar “motivos válidos” para as pessoas baterem umas nas outras?

Uptade 2: Eu não estou dizendo que acho que a cena não tem demais. Estou elaborando meu pensamento sobre isso, mesmo.

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