Ultimamente tenho pensado em comida nas 18 horas do dia em que estou acordada. E comido. Enquanto como uma coisa, estou pensando em outras mil que tenho vontade de comer, planejo o almoço, o lanche, o jantar com antecedência e tenho aguardado a hora de comer com bastante ansiedade. Mas, não constatei isso sozinha, e sempre achei que estivesse nos limites da normalidade já que sempre fui famosa pelo grande apetite.

Sábado estávamos tomando café da tarde em família, eu comia um misto quente e comentei que estava esperando pelo pão de queijo que estava no forno. Logo depois planejávamos uma ida ao shopping e eu disse empolgada que chegando lá iria direto a tal restaurante comer tal coisa. Foi quando minha irmã disse: – Mãe, acho que essa menina está obssessiva.

Estou assutada até hoje com a possibilidade. É que eu me lembro que até metade do ano passado eu me afogava em prestações de perder de vista e não resistia ao ver um belo sapato, principalmente. Colecionei mais de 50 pares, o que até eu acho muito, visto que sou uma estagiária mal paga como todos os outros. Mas, a minha situação financeira foi do preocupante ao desesperador e tive que parar de comprar. E foi aí que comecei a engordar: 14 quilos em pouco mais de um ano. Dos 48 em 2007 (que eu me desesperava por achar pouco) aos 62 (e aumentando) atualmente (que eu me desespero por achar muito).

O pior é que de umas semana pra cá, prestações todas quitadas, cheque especial sanado, notei que tenho gastado muito com lanchonetes e restaurantes. Percebeu o perigo? Estou consumindo e comendo muito ao mesmo tempo. Repito, estou assustada com isso. Estou assustada por que sei que minha cabeça não anda bem. E a única coisa que me livra de achar que estou com algum distúrbio é justamente o fato de saber (acho que as pessoas depressivas por exemplo não percebem, não é isso?).

Ando perdendo pensamentos pela metade. Estou resolvendo algo mentalmente e no segundo seguinte esqueço o que estava pensando. Hoje mesmo, lendo as notícias na rádio, vi que as coisas não faziam sentido algum. Uma sensação estranhíssima: era como se eu estivesse lendo algo em um língua totalmente desconhecida: eu conheço o código e sei lê-lo mas não sei o que significa. Por uns instantes tive medo de que estivesse lendo coisas trocadas, palavras inexistentes. Meu cérebro não as reconhecia.

Tenho sensações recorrentes de que vou desligar a qualquer momento. Olho para as coisas e elas me parecem frames, não uma realidade na qual estou, mas algo que olho de fora. Mas ao mesmo tempo, continuo agindo normalmente, ou pelo menos ninguém notou nada anormal. É como se eu estivesse dividida em duas: uma parte automatizada, que continua fazendo as coisas para as quais foi programada. E uma parte consciente que não consegue se conectar à outra. Que  vê tudo distorcido, de fora.

E Deus sabe que sofro porque não sou do tipo de pessoa que fala. Divido todas as leviandades da minha vida com todo mundo. As histórias bizarras, engraçadas, pitorescas. Mas o pesado fica aqui, guardado. Anos e anos de dores amontoadas que eu não me lembro de ter dividido de forma integral com ninguém. Se tanto, aos pedaços aqui.

Tenho medo e não consigo dizer. Alguma ajuda?

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