Semana passada estive pela primeira vez em Vila Nova de Colares, um dos bairros da última região da pesquisa sobre produção cultural nas periferias da Grande Vitória que eu realizo aqui na UFES. É um lugar aterrador. Não senti conforto como em Feu Rosa. Nem familiaridade como em São Pedro. Senti até medo em alguns momentos. Uma energia vibrante de um lugar que viu mais dores do que felicidades.

pipas1Muitas crianças estavam soltando pipas nas ruas e em cima dos telhados, e não pude evitar questionar-me se faziam isso porque eram crianças, ou porque o GAO estava fazendo batidas no bairro. Aliás, essa foi a primeira visão que eu tive a descer do ônibus: dois jovens de pernas abertas, mãos na parede. Quatro policiais pesadamente armados. Entre eles, uma mulher, bela, loira. Que me chamou a atenção não por ser mulher, ou bela. Mas porque me fez olhar ao redor e constatar que ela provavelmente era a única pessoa com aquele tom de pele e de cabelos em todo aquele bairro. Só para constar, os outros policiais também eram brancos. Junto comigo deveriam compor os 10% (se tanto) de população caucasiana de Vila Nova de Colares, no momento. População que se reduziria consideravelmente no fim da tarde, quando nós cinco fôssemos embora.

Digo se tanto, porque no ônibus que liga o Terminal de Laranjeiras ao bairro, eu era a única caucasiana. Todos os outros, negros ou pardos. Um em um universo de umas 40 pessoas, dá que porcentagem? Isso porque eu sequer moro no bairro, então não entro para as estatísticas.

E acho que nem preciso destacar como a razão se inverte nos ônibus que pego para ir da UFES para a Reta da Penha, por exemplo. Ou da UFES para qualquer outro lugar, que seja. Porque as cotas estão aí, mas as universidades ainda são países de brancos, ninguém pode negar. Mesmo entre os classejovem-negro média baixa que pegam ônibus: todo mundo bem miscigenado (não é assim que se diz?) , com a Europa na pele, nos olhos, na cor dos cabelos, e algum índio ou negro perdido no meio da infinidade de tataravós da árvore genealógica. E os negros e pardos de Colares? A academia diz: não trabalhamos. Pelo menos até agora já que o projeto Universidade para Todos abriu turmas de pré-vestibular por lá, e eu realmente me sinto esperançosa com isso.

Entre as pessoas que fui entrevistar, estava um senhor que resolveu mudar para a Serra há alguns anos atrás e acabou encontrando um terreno barato em Vila Nova de Colares. Chegando lá viu que o bairro era a cara da miséria.Uma invasão de pessoas vindas de outros Estados, como ele, mas bem menos abastadas. Depois ainda virou domínio do tráfico. Quis sair mas não conseguiu porque ninguém queria comprar sua casa. E então comprou outros terrenos, construiu outras casas, pôs para alugar e hoje aplica todo o dinheiro dos aluguéis em uma associação que dá aulas de balé, música, esportes para as crianças do bairro de graça.

Seguindo com meu questionário, eu perguntei porque ele desenvolve esse trabalho. E esperava ouvir alguma das repostas padrão dos outros entrevistados: para tirar as crianças da rua, oferecer formação cultural, sanar a miséria desse tipo de atividade no bairro. E ele me disse: porque todos temos que fazer. Porque é obrigação das pessoas contribuir para a melhora da sociedade.

cotasE não é verdade? Obrigação mesmo de quem não tem imóveis para alugar, não tem tempo, não tem desprendimento. E se você está nesse grupo (como eu) pode começar apoiando as cotas, por exemplo. Até porque é um ledo engano achar que isso muda apenas a vida dos favelados descendentes dos escravos, marcados por anos de exploração e alijamento. Porque só mesmo quem fica alienado debaixo da montanha de fórmulas de memorização dos grandes cursinhos particulares para acreditar que o nível das universidades vai piorar com a entrada dos cotistas. Nível de quê, cara pálida? Porque eu conheço alguns níveis que as universidades deveriam ter: de diversidade, de interesse, de compromisso, de abrangência, de discurso, de adequação social, de revolução. E tenho toda a certeza que as cotas só fazem aumentar todos eles.

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