fumarDia desses estava vendo o programa da Márcia, com um casal brigando por ciúmes. O homem reclamava que a mulher era doentia. Batia em quem visse pela frente. A mulher reclamava que o homem dava mole pra todas as “piranhas”, que vinham pedir um cigarro pra ele. Quando a Márcia me pára a construtiva discussão para dizer: “Fumante é tudo assim, mesmo. Além de prejudicar a saúde dos outros, ainda é mal educado e fica pedindo cigarro para todo mundo”. 

Não que a Márcia seja um poço de sabedoria, mas juro que não esperava uma generalização tão ridícula. Até porque a Márcia pra mim sempre teve cara de fumante (vocês também acham? ) e também o que nisso ajuda no caso em questão?

Há algumas semanas eu relembrei dessa história. Eu estava no ponto de ônibus e me afastei das pessoas para fumar um cigarro (ainda fumava na época, hoje não mais e estou bem feliz com isso) quando uma moça chega perto de mim e me pergunta se eu não venderia um cigarro para ela. Precisamos tirar o chapéu para a esperteza da menina. É uma forma de pedir um cigarro sem pedir, já que muito provavelmente eu daria o cigarro para ela, sem cobrar nada. 

E fiquei pensando na quantidade de relações interativas que rodeiam o hábito de fumar. Eu diria até comunitárias. Quem fuma sabe muito bem cigarro 3como é triste a necessidade por um cigarro, o que faz com que geralmente se compadeça de outros fumantes que estejam desprovidos. E eu não acho que a toxicidade tire o mérito da questão. 

Sem contar as inúmeras vezes em que travei conversas muito interessantes com estranhos simplesmente porque eu e eles estávamos dividindo a mesma calçada enquanto fumávamos. Uma amiga comentou recentemente que conheceu um grande amigo assim. Ambos ficavam nas varandas de seus apartamentos fumando n0s mesmo horários do dia, quando começaram a travar diálogos de um apartamento para outro. Outro exemplo são os ambientes de trabalho: se mais de uma pessoa fuma, dificilmente ela sai do recinto para fumar sozinha, e consequentemente, constrói relações nesses instantes divididos. 

A questão maior é que nessa cruzada pela saúde pública, o cigarro e os fumantes estão sendo postos em uma patamar que chega a ser preconceituoso. É como se, simplesmente pelo ato de fumar, os fumantes fossem inferiores do que as outras pessoas saudáveis. Afinal de contas, eles destroem seus corpos voluntariamente, além de poluírem o mundo, contaminarem as pessoas ao redor, mimimi. Mas eu preciso dizer que conheço fumantes extremamente educados: que sempre se afastam dos outros pra fumar, que nunca fumam na frente de crianças, que sempre jogam as gimbas no lixo e por aí vai. E quanto à “falta de amor próprio”, eu sei que isso vai doer, mas as pessoas também se destroem voluntariamente, bebendo alcool, comendo junkie food, sendo sedentárias e mimimi. 

cigarroHá alguns dias mesmo, rolou a notícia de que em São Paulo até em filmes e peças de teatro, vai ser preciso pedir autorização judicial para usar cigarros. Impossível que só eu ache isso absurdo. Eu concordo absolutamente que seja proibido fumar em repartições públicas, por exemplo. Ou em  lugares totalmente fechados, como shoppings. Agora, se uma boate quer fazer um espaço reservado em que se possa fumar, qual o mal disso? Se você não fuma e não gosta de cigarro, vai entrar nesse ambiente? Será que não basta simplesmente, que os dois sejam oferecidos, para quem fuma e para quem não fuma? O objetivo é qual? Preservar os lugares livres da fumaça? Mas isso, em certa medida, não equivale a dizer que só quem não fuma tem direito a viver socialmente? 

Eu, pelo menos, não consigo deixar de achar que isso é preconceito. 

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