Eles andam em grandes grupos. Corpos malhados, roupas de marca. Bebidas, cigarros. Belas e bem vestidas garotas à tira colo. E se divertem muito. Não na opinião de todo mundo. Para mim, por exemplo, dão é muitos exemplos de descidadania.

Eu estava trabalhando na boate sexta-feira, quando um desses grupos chega e se instala em frente ao bar. Sem qualquer cerimônia, eles enfiam a mão para dentro do balcão para pegar copos, canudos, e até gelo, da mesma caixa de gelo que eu uso apara servir todas as outras pessoas da boate. Afinal de contas, pra que serve a mocinha que está ali trabalhando? Para entregar a você algo que você tenha pedido? Bah, vamos meter a mão e pegar nós mesmos!

Comecei a ficar puta por aí. Alguns minutos depois eles voltam para beber algumas doses de tequila. Daquela que vocêtequila_makesme_a_betterperson_by_k2 serve com sal e uma fatia de limão. Não contentes em chamar a minha atenção com um delicado tapão sobre o balcão, os belos moços ainda coaptam o pires onde estava o limão, o copo de vidro onde coloquei a tequila e o vasilhame com sal, e levam para fazer não sei o quê na pista de dança. Claro, porque eles são as únicas pessoas da boate que tem direito de tomar tequila, ou porque os utensílios vão de brinde com a bebida, e só a mocinha do balcão é que não estava sabendo.

Antes que a moça perceba que os objetos foram surrupiados, um deles vê a caneta marca texto que a mocinha usa para anotar eventuais correções que precisem ser feitas na comanda de algum cliente, e resolve pedi-la emprestado. A mocinha educadamente empresta e acaba vendo a mesma caneta que dias antes estava deslizando suavemente sobre as linha de Toni Negri ser passada com violência sobre a pele de quem quer que esteja na pista. Sim, o querido cliente estava usando a caneta para riscar seus amiguinhos.

Quando a mocinha pede a caneta – e os copos, o pires e o sal –  recebe de volta: um copo quebrado, uma vasilha de sal quase vazia e uma caneta sem tampa. Foi quando a minha paciência chegou ao limite.

Sim. Porque acho que posso ser veemente ao dizer que se apropriar de coisas que não são suas e ainda por cima estragá-las não é diversão. É no mínimo falta de educação e de civilidade. Aliás, sempre achei esse um tipo de diversão das mais babacas. Já disse algumas vezes que tenho vontade de destruir uma prateleira de garrafas de vidro, mas sempre penso em comprar a prateleira e as garrafas, instalá-las em minhas casa e quebrá-las, se um dia eu tiver dinheiro para isso. Nunca farei isso em um supermercado, porque né, as garrafas não são minhas, e isso me parece tão básico. Eu não posso me apropriar de coisas que não são minhas, isso é roubo. Eu não posso quebrar coisas dos outros, é vandalismo. Ensinamento tão básico quanto 2 mais 2 são quatro. Será que os pais estão pulando isso agora também?

20081027_05E a questão nem é material. Qualquer um pode quebrar um copo por acidente. Uma caneta marca texto não é tão cara assim. Mas eu ainda fico pasma com a falta de respeito que algumas pessoas têm com as outras, especialmente quando estão em posição privilegiada (Leia-se rapazes de classe média versus menina que trabalha no bar da boate). Não é o valor  de troca que importa, mas o fato da minha caneta ter sido comprada com o dinheiro que eu ganho com o meu trabalho, e de ela ser usada para tais e tais fins importantes para mim, e de repente tornar-se inutilizada simplesmente porque alguém se sentiu no direito indevido de pegá-la  e dar a destinação que quisesse pra ela.

Sem contar que eu fico me perguntando se o desrespeito seria o mesmo se eu não estivesse em uma posição de servir e, principalmente, se eu não fosse mulher. Se fosse um homem no meu lugar, a situação seria a mesma? Reflitam. E não adianta alguém me dizer que eles não agiriam da mesma forma simplesmente porque os homens são mais agressivos e o mocinho do bar provavelmente não seria tão educado como eu fui. Depois que eu conheci a Lola, esse é o tipo de argumento que não me desce mais, ao contrário da tequila, que eu ainda gosto muito, apesar das más lembranças.

Anúncios