Esta madrugada passou um carro aqui na rua tocando Love by Grace. Love by fucking Grace. Que  tipo de pessoa em 2008 põe Love by Grace para tocar no carro às duas da manhã? Suicídas? Doentes terminais? Alguém que passou dez anos em coma? Um naúfrago de uma ilha deserta?

Pelo sim, pelo não, estou atenta ao carro funerário. Não sei se vocês sabem mas em cidade pequena, quando alguém morre, uma carro da funerária com auto-falante passa avisando quem faleceu e quando e onde serão o velório e o enterro. Sempre começando com a frase: “Comunicamos com pesar o falecimento de fulano de tal” e concluindo com: “A família agradece por esse ato de caridade cristã.” O ato, no caso, é visitar o morto nesta que provavelmente será sua última aparição pública na terra.

funeralE como qualquer coisa em cidade pequena, mortes também são grandes acontecimentos. A passagem do carro funerário provoca verdadeira comoção em todas as casas. É só ouvir algum sonzinho vindo da rua que todo mundo começa a se perguntar: “quem morreu? quem morreu?” E é fato que ao menos uma pessoa de cada casa sai para a rua a fim de ouvir melhor o comunicado e às vezes volta para dentro perguntando: “a gente (a família) conhece algum fulano de tal?” A resposta quase sempre é: “não é o filho de tal pessoa, irmão do marido de fulana que trabalha em tal lugar junto com cicrana? “Às vezes a gente também se engana. Volta para casa decepcionado (?!): “Ah, era só o carro de anúncio do baile”.

Eu fico imaginando o carro passando anunciando a minha morte. Tipos, se eu morresse agora. Pessoas iriam chorar? Quantas iriam saber quem eu sou? Quantas iriam apenas conjecturar pelo sobrenome ou pelo endereço do local do velório? Quantas nem assim iriam saber quem eu sou, mas apareceriam no velório para descobrir?

Velório sim é o grande teste de popularidade das cidades pequenas. Velórios e enterros concorridos geralmente são os das pessoas ilustres. Mesmo quando essa fama é ingrata, proveniente apenas da causa da morte, quando de algum assassinato ou suicídio. Eu mesma já fui a um velório de um menino que eu não conhecia, porque soubemos que ele se suicidou. E ainda ficamos, eu e minhas amigas, olhando discretamente para a cabeça do morto para tentar ver o buraco do tiro.

O triste é constatar que Madonna pode vir para me dar seu último adeus, que eu nem vou notar. Teste ingrato.

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