Eu tento não fazer disso aqui o meu muro das lamentações privativo, mas a vida não me deixa escolhas. Eu não seria estúpida de dizer que a minha vida é uma desgraça, até porque isso seria uma injustiça com todas as mazelas humanas. Mas é que ultimamente, o que me faz derramar lágrimas tem me parecido mais literariamente interessante do que o que me arranca sorrisos.

Ontem, por exemplo, depois de mais um dos acontecimento da série “quase cheguei lá”, eu decidi pegar os três livros que estão empilhados do lado da cama, pedindo misericórdia, juntar com os outros dois que eu ganhei essa semana e ler todos, pelo menos uma página de cada. Só porque eu sou uma pessoa que acredita que as referências servem para quando a gente não consegue mais concatenar nada com nada.

Então, sentei eu, trajando robe de cetim preto, coque no alto da cabeça. Caneta bic sem tampa na mão, bloco-brinde do Santander sobre o tampo de granito da mesa da copa. Logo a frente,  ao lado da caixinha com os Cd’s do U2, da Yael Naim e do Pearl Jam, estavam:

– Negri e Hardt, com o indefectível Multidão;

– Charney e Swartz, talentosamente organizando O Cinema e a Invenção da Vida moderna;

– Susan Sontag, com o referenciado e por mim intocado, Diante da Dor dos Outros;

– Caetano Veloso, a vaca profana, contando-se e a seus pares em Verdade Tropial;

– Italo Calvino, com O Cavaleiro Inexistente, sobre o qual ainda não tenho o que resumir, além do fato de ter sido a definição do “quem sou eu” do perfil do orkut de alguém que eu quero porque quero trazer de volta para a minha vida.

– Madonna, não em livro, mas em música, cantando Miles Away na rádio.

(Neste momento, Fresno entra em cena. Eu desisto da FM, por motivos óbvios, e resolvo colocar a franco-israelita para trabalhar. Ok, Yael não deu certo, pula para U2. Vamos ver… Joshua Tree, porque eu sou tradicional às vezes. O leitor de CD está igual à indústria fonográfica: aos trancos e barrancos. Vamos lá! Ah! Beleza! Funcionou! Já ouço a introdução de Where the streets have no name. )

Eu resolvi começar com Multidão, porque Negri é diva ne? Optei pelo estilo Minutos de Sabedoria: fechei os olhos, mentalizei meu TCC e abri em uma parte aleatória. Para provar que Deus existe, caiu no segundo subtítulo da parte final do livro, Democracia, em um trecho intitulado Iconoclatas.

Remonta a história do Império Bizantino, de combater os ícones, para garantir que o governo fosse a única ligação do povo com o divino, e consequentemente garantir o seu poder. Defende que o poder de imprimir significados deve pertencer à Multidão. Ok! 1 ponto para o trabalho sobre internet.

Em seguida peguei o do Caetano. Utilizando do mesmo método, abri em uma parte que falava da amizade de Caetano e Wally Salomão e da primeira experiência dele com o auasca. Ok! Usar drogas com os amigos.

omo eu não tinha lido nenhuma palavra do livro do Calvino, resolvi começar do começo, que conta a história de um combatente da tropa de Carlos Magno, que não existe, é feito apensa de força de vontade. Ok! Esse é o auto-ajuda: Não desista!

Fiz o mesmo com o livro da Susan Sontag, que fala sobre as cartas escritas por Virginia Woolf para amigas, comentando sobre as fotos de guerra publicadas no jornal. Ok! Captei a mensagem Susan: considerar o suicídio.

Quando chegou a vez de O Cinema e a Invenção da Vida Moderna, eu entrei em desespero e fui levada para o hospital em estado de choque. Mentira. Eu senti sono mesmo e fui dormir sem ler, achando que desse mato não sai cachorrro.

Resultado da noite: eu devo optar pelo trabalho sobre a representação da figura popular da internet, depois usar drogas com os meus amigos para saber o que fazer com esse tema. Daí, eu tenho que esgotar todos os meus esforços, ter muita força de vontade, e no fim me matar caso nada de certo.

Viu só, como dá certo?


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