Meu pai está em casa de novo. Magro como eu nunca vi na vida. Uma figura cadavérica, que trouxe todo o peso de um passado, de um presente, e de um futuro. Tudo junto, amalgamado: lembranças, situações e previsões. Perguntando de uma forma inocente de dar dó, como estão as nossas notas na escola. Se mamãe está indo às reuniões como os nossos professores. Com o tempo, as confusões mentais passam, ele sequer vai se lembrar. A gente sim, às vezes com lágrimas, às vezes com risos. Se bem que com o tempo, também estamos começando a perder o fio da meada. Somente quando estamos juntos é que conseguimos divisar a primeira crise, da segunda e da sexta. Mas mesmo que as confusões passem, a insônia fica. A parte mais trsite de todas. Os remédios ora o deixam grogue, hora agitado. Mas só começam a produzir o efeito esperado, ajudá-lo a dormir, depois de algumas semanas. O que acaba se transformando em noites intermináveis, andando de um lado para o outro da casa, até que os pés não suportem mais. Lembro de passar horas, com os pulsos doloridos, fazendo massagem nos pés de meu pai, para aliviar a dor causada pelo andar incessante.

(Agora ele está cortando em pedaços uma vela aromática, que não sei de onde veio, menos ainda qual a intenção)

De qualquer forma, tê-lo aqui apesar das angústias, me traz felicidade. Porque sei onde ele está, e confio a minha própria vida às pessoas que vão ficar aqui com ele, quando eu voltar para Vitória. Porque de todas as dores que já experimentei nesses dez anos de transtorno bipolar ativo, a pior, certamente, é a espera. Não saber, em crise ou não, se ele vai voltar.

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