Nessa semana foi comemorado (?) o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, e foi de link em link que eu acabei visitando alguns blogs de mulheres com posts sobre o tema, contando seus próprios horrores em solidariade a outras mulheres que passam por qualquer tipo de violência, da simbólica à sexual. O primeiro foi o Escreva Lola, o segundo foi A vida sem manual e por último o Deixo Ler. (Todos vão para o blogroll, obviamente, pela boa causa e pelos ótimos textos.) O fato é que esse tipo de história me sensibiliza de uma forma impressionante. Primeiramente, por eu ser mulher. Segundo, por ter visto de perto algumas mulheres sofrerem caladas os mais variados tipos de violência doméstica. E segundo por uma indignação enquanto ser humano, de saber que moro em uma país que ainda vivencia de forma avassaladora esse tipo de problema.

O pior é ver que muitas pessoas ainda pensam que os homens têm direito de bater em suas esposas quando estão em um mau dia, ou que muitas mulheres merecem ser estupradas, por serem muitos liberais e provocarem os homens. Como bem disse Lola, desculpem-nos homens por termos nascido com seios e vaginas e provocarmos tanto vocês a ponto de vocês precisarem nos estuprar.

De modo que resolvi me unir a essa corrente informal e contar também uma violência que sofri ainda quando criança, extremamente leve em comparação às histórias que li hoje, mas que demonstra, de alguma forma, como todas nós estamos vulneráveis e precisamos não renunicar a nossa libertade de agir, mas sim tomar conciência disso, alertando principalmente as crianças com as quais temos contato e não tendo medo de denunciar qualquer tipo de violência sofrida.

Por vários motivos sempre estudei em bairros diferentes do que eu morava.  Quando eu era muito nova, meus pais pagavam um transporte escolar, mas depois de certa idade, como eu morava em uma cidade pequena, comecei a fazer o trajeto a pé ou de ônibus, na maioria das vezes acompanhada dos meus irmãos, mas outras ainda sozinha.

Quando eu tinha uns 11 anos, eu estava descendo um morro em direção à escola, quando um homem veio andando atrás de mim, falando coisas sexuais, inclusive em referência ao meu corpo ainda infantil, que hoje eu já acharia tenebrosas, ainda mais aos 11 anos. Eu comecei a andar mais rápido até me desvencilhar do indivídio e lembro de ter ficado muito assustada. No dia seguinte a cena se repetiu, e foi então que eu tomei coragem e parei uma mulher que passava e pedi se ela poderia me acompanhar e expliquei que “aquele homem” estava falando coisas pormíscuas para mim. A mulher não só disse uma legião de impropérios ao “senhor”, como me acompanhou até a escola por dias seguidos depois daquilo. Apesar de ter tido da minha família a instrução suficiente para tomar a iniciativa de buscar ajuda, me lembro de mesmo assim ter tido vergonha. Afinal de contas, eu era uma criança na época, não havia noção de qualquer sexualidade em mim, e sentia vergonha de todas aquelas palavras sujas.

Mas me impressionou a solidariedade daquela mulher comigo. Eu, certamente, não faria coisa diferente, ainda mais com uma criança, mas é bonito presenciar essas ações, assim como as que vi hoje, de mulheres usando seus canais próprios de comunicação para alertar outras mulheres, quem sabe evitar que algumas sofram violência e com certeza acalentando aquelas que passaram por isso. Além da integração à corrente, fica o meu parabéns a essas três corajosas e a tantas outras, como a Maria da Penha, que deu nome à lei brasileira, e que rompem o véu do silêncio por justiça e solidariedade.

Por falar nisso, está rolando na net um manifesto dos homens unidos pelo fim da violência contra a mulher. Se você for homem, entre nesse site aqui e assine o abaixo-assinado pela implementação integral da Lei Maria da Penha e pela implantação de outras políticas públicas de proteção às mulheres.

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