A mocinha está amparada no colo da amiga. O vômito dela está no chão, parte em seu pé. Eu servi duas tequilas pra ela. Sinto que tenho parte dessa degradação e isso longe de me incomodar, me agrada. Tenho o poder, de uma forma muito sutil e própria, é verdade, de levar alguém à degradação. Queria poder canalizar e direcionar isso.

No meu lado tem um cara vestido de Robin, dormindo sobre uma tábua. Ele tem uma beleza suburbana. Aquele pedreiro para qual as granfinas que passaram dos 40 são loucas para dar. Eu não quero dar pra ele. Mas ele é, a seu modo, belo.

Mais a frente tem um menino muito bonito. A beleza oposta: uma borboleta de tão delicado. Ele está prestes a entrar em coma alcóolico. Pronuncia alguma coisa sem sentido, mas sequer consegue se manter sentado. Ele está desmaiado no chão de cimento, algo que me divide entre a pena e a cumplicidade. Somos iguais em desgraça. Nunca bebi a essa ponto, mas se um dia o fizer vou lembrar do menino e da nossa cumplicidade ébria.

Em pé ao lado do menino, tem outro menino. Que joga respingos de água no rosto dele. Enquanto isso diz: “Exu!” “Maldito!” “Você está acabando com a minha festa!”. Depois ele conta que não sabe como o menino bêbado vai embora. Ele não tem família. Não tem amigos. Mora em um lugar no qual nenhum dos seus colegas mora. Foi para a Move de ônibus. Talvez isso tudo justifique sua vestimenta emo. A pós-modernidade criou um monstro. Contradizendo suas próprias pragas o menino em pé diz que pensa em levá-lo para a própria casa. Para cuidar dele no terrível day after. O menino de pé veste um vestido xadrez vermelho e crocs rosa choque. A falta de peruca ou maquiagem faz com que o conjunto fique muito estranho.

Era Halloween. Festa a fantasia. Eram cinco da manhã e ainda faltava duas horas para o fim do dia. Era eu  pensando no porquê de você estar tão distante. Eu, no meu dia das bruxas particular.

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