Hoje eu fui acordada por uma cãibra lanscinante na panturrilha direita e enquanto a minha cunhada aliviava o problema com uma massagem, ela foi desfiando as últimas notícias ruins da semana. E lá se foi mais uma madrugada com aquele velho ritual que acompanha as notícias ruins: levantar da cama, preparar um café e ficar remoendo o assunto até o sol chegar anunciando que o mundo não parou por causa dos seus problemas e sim, você tem muita coisa pra fazer.

Porque notícia ruim é uma coisa esperta: ela não se contenta em ser ruim, ela precisa chegar de madrugada, depois de um puta dia de trabalho, impedir você de dormir o restante da noite, para que você esteja acabada o suficiente para não resolvê-la com a necessária proficiência.

Nessas horas eu tenho certeza que Deus é mesmo a entidade dos desvalidos. É só chegar uma desgraça que a gente pensa: “Meu Pai Eterno, me ajuda”, com lágrimas nos olhos. Afinal de contas, não sabendo como se livrar de um problema, não importa se é deísta ou não, a gente vai lá apelar para o que quer que esteja acima.

As lágrimas caindo pelo chão do banheiro me fizeram lembrar da última vez que eu chorei, antes de hoje. Foi no meu mais recente dia de trabalho na Blow Up quando eu vi os seguranças de mãos dadas em roda, rezando o pai-nosso. Porque religiosidade é uma coisa contagiante e eu não pude conter o ímpeto de fechar os olhos e repetir a oração em um sussurro. Daí para eu chegar às lágrimas, foi um pulo. Como me disse ontem, um empresário do setor de transportes que lê mãos (!), eu sou uma pessoa muito emotiva.

Assim como há alguns anos, quando minhas irmãs ouviam músicas gospel em casa, dava uma vontade imensa, inexplicável, de fechar os olhos e se deixar levar pela canção. E esse é o segredo do sucesso das religiões protestantes: o louvor. E não somente porque eles animam o culto, ou atraem os jovens, mas também porque pela emoção naturalmente despertada pela música, somado ao conteúdo das letras, é muito fácil sentir presente qualquer tipo de espiritualidade. Assim como as notícias ruins, os evangélicos também são muito espertos.

 

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