Eu sou mulher, universitária, nascida em uma cidade com menos de 100 mil habitantes e espírita, ou seja, minoria, em sentido numérico e social. Exceto em uma situação: dentro do ônibus, especialmente de madrugada quando eu estou voltando do trabalho.

Ali, eu sou maioria. Faço parte de uma massa de trabalhadores, todos vindos de longas horas de serviço, que irão lhe render, além do cansaço físico, uma baixa remuneração. Em uma rápida olhada, vejo meninas tentando manter o mínimo contato  dos pés com o chão, prováveis garçonetes, como eu. Vejo homens de preto e mocinhas bem maquiadas, possivelmente  seguranças e vendedores de shopping. No caminho entre a porta e roleta, deparo-me até com uma estátua viva que, coitada, não pode sentar nos bancos por causa da tinta em suas roupas.

Nesse ambiente não importa que eu fale inglês, leia Deleuze e assista Almodóvar, eu preciso dar boa-noite ao motorista e ao cobrador, pagar o mesmo valor pela passagem, contar com a sorte de ter um banco vago, dar sinal e descer no ponto mais próximo a minha casa, mesmo que esse “mais próximo” signifique três ou quatro quarteirões. E faço isso como todos os outros.

Vê-los assim igualitários, ver-me assim amalgamada a eles, me fez ter uma coragem incrível de, assim como eles, tirar o fone de ouvido da bolsa e ouvir despreocupadamente uma música qualquer na rádio, e ganhar as ruas, saltando da lotação, tomando essas vias vazias como minhas, afinal, agora, também sou um habitante da noite. Como as prostitutas esperando clientes na rua principal, os maconheiros da pracinha ou os assaltantes à espreita, procurando por uma ocasião.

Por coincidência, pela segunda noite seguida, tocou It’s my life, do No Doubt, na mesma estação de rádio. Nada mais apropriado, já que não importa o quão preocupante possa ser para a minha família, que eu esteja pegando um ônibus para voltar para casa sozinha, meia-noite e meia. A vida é minha e ninguém pode se esquecer disso.

Em homenagem aos meus companheiros de viagem, uma música linda, que tocou ontem na minha mente, durante todo o percurso, jogando a Gwen Stefani para escanteio. Como não é possível anexar um arquivo de áudio do computador, e essa música não existe em nenhuma rádio que eu conheça, vai um vídeo tosco do Youtube mesmo:

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