Hoje fiz minha primeira incursão à Nova Rosa da Penha, região que eu e Ju iremos estudar nessa nova etapa da pesquisa que desenvolvemos aqui no Labic, sobre a produção cultural das periferia de Vitória. E foi durante o caminho que eu me dei conta de que nunca havia passado na Rodovia do Contorno antes. De fato, uma péssima estrada, em aparente processo de duplicação. Obviamente, a recente superexposição na mídia contribuiu para isso. Tão obviamente quanto, não foi por preocupação com as mortes que estavam ocorrendo ali que a grande imprensa resolveu bater nessa tecla. Oito períodos de jornalismo é suficiente para saber que empresas não são boazinhas, nenhuma delas. Agora, o assunto saiu um pouco da pauta. PH deve ter liberado uma verba maior de publicidade.

Chegando a Nova Rosa, fui tomada pelo mesmo sentimento das outras duas localidades que já tinha visitado, São Pedro e Feu Rosa: familiaridade. Ambas guardam uma incrível e aconchegante semelhança com  o bairro onde morei em Aracruz: horizontalidade, terrenos baldios, pés de fruta nas casas, crianças em todos os cantos, pontos comerciais de uma única porta. No entanto, Nova Rosa é de todos, o lugar que mais se adequa ao conceito de periferia: a região é bem afastada do centro de Cariacica, algumas ruas e casas chegam a ter um certo aspecto rural, agravado pelo fato de que apenas as vias principais possuem calçamento.

Notei também que as ruas acumulam mais lixo. Lembro-me de já termos discutido aqui no laboratório alguma vez como o apreço com o meio ambiente ainda é embrionário nas localidades mais pobres. Penso que o raciocínio da população deva ser o seguinte: se as autoridades responsáveis não se preocupam com esse espaço, que é público, por que eu devo zelar por ele? Mas, acho ainda que o centro dessa discussão seja bem menos racional: as pessoas redirecionam o descaso com o qual são tratadas, para onde lhes é possível. Uma catarse coletiva, de impregnar a cidade que os rejeita.

Enquanto esperava a pessoa que eu iria entrevistar (um b-boy muito fera, a propósito) me detive na frente de uma loja de roupa que tinha um vestido balonê estampado na vitrine e fiquei pensando se usaria ou não aquela roupa. Como exercício, tentei transportar aquela imagem para o corredor de um shopping, e tomei noção de uma forma avassaladora do quanto que os conceitos estéticos estão defasados: não há mais certeza alguma do que é belo, brega ou mesmo popular. Todas essas categorias estão cada vez mais híbridas e fluidas, como tudo na pós-modernidade. A conclusão é que eu usaria sim o vestido, por mais duvidosa que a estampa pudesse parecer à primeira vista, assim como o faria qualquer hype da Praia do Canto,  caso ele tivesse uma etiqueta da Le Lis Blanc por dentro.

Isso me fez recordar um situação que aconteceu comigo em São Pedro. Eu estava visitando uma organização de mulheres, que recebia gratuitamente produtos da C&A, através de uma fundação de responsabilidade social que a loja mantém, e os revendiam como forma de obter recursos. Enquanto a diretora da organização manuseava alguns objetos, notei que dentre eles havia um modelo de brinco que eu havia comprado na semana anterior, por R$19,90, e que todas as minhas amigas e irmãs, assim como eu, haviam achado o último grito da moda. Na hora pensei: eu compraria esse mesmo brinco se o visse aqui, por 5 reais?

Quando estava indo para o ponto de ônibus, recebi um panfleto da Aparecida Denadai, que é  a candidata  a prefeita em Cariacica. Eu poderia dizer à gentil menina que não votava em Cariacica, e evitar que mais um pedaço de papel se acumulasse na minha bolsa, até eu ter ânimo de jogar fora, o que só deve acontecer daqui a uns três meses. Mas desde que eu estou trabalhando com eleição para a Futura, o meu coração está amolecido, e se antes eu sempre pegava os papéizinhos, em respeito ao povo que trabalha de baixo de sol e de chuva por uma merreca, hoje isso se tornou quase um ato de defesa da classe. E tirando o fato de ela ser do PDT, um partido irritante, e de considerar o consumo de entorpecentes a causa de toda criminalidade e violência, digo que gostei do que li. Especialmente pela proposta de criação de um Plano Diretor Ambiental. Acho que aquelas crianças brincando ao lado de um sem número de sacolas de lixo, tocou fundo em mim.

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