Ontem, antes de ir ao cinema apareceu uma afta na minha língua. Coisa chata esse negócio de afta. É uma coisa que não propriamente coça, não propriamente arde, não propriamente dói. Ela fica ali, inchadinha, incomodando, e o pior de tudo: pedindo para ser cutucada, com o céu da boca, com os cantos dos dentes incisivos, com a mais diversas gama de artefatos pontiagudos.

Saramago para mim é como a minha afta, ou como roer unha, ou tirar a casquinha do machucado. Você sabe que vai doer, a dor física, dor da culpa, dor de saber que aquilo não termina nunca, mas é quase uma necessidade fisiológica: você precisa cutucar.

Você sabe que certas passagens vão embrulhar seu estômago, que vai ser sofrido focar sua visão para não se perder no meio dos parágrafos infinitos e diálogos sem travessão. Você sabe que aquilo vai rodar na sua cabeça indefinidamente, por dias sem fim, até que leviandades do dia o consumam. E o pior é que você sabe, que lendo uma vez, qualquer dia distraidamente, aquilo vai te tomar novamente, num ciclo sem fim. E mesmo assim, como não ler Saramago? E agora, como não ver Saramago?

Ensaio sobre a Cegueira deveria ser uma obviedade. Fernando Meirelles: ponto a favor. Diálogos em inglês: ponto contra. Gael Garcia e Julianne Moore: ponto a favor. Corte das cenas mais fortes: ponto contra. Um dos maiores clássicos da literatura recente: tem maior ponto a favor do que isso? Só se tivessem chamado o Almodóvar para dirigir. Mas aí, obviamente, o Gael teria que pegar o Mark Ruffalo, e descobriríamos no final que a Alice Braga na verdade é um travesti e o menino é filho dela com alguma das mulheres da outra ala. Mas eu não posso negar que saí sem fôlego: put* de um caralh* de um filme!

Amei a luz estourada, amei os contrastes claro e escuro, amei a significância das ausência de cores, amei os enquadramentos, amei a câmera na mão na sequência final, amei a cena pictória das mulheres lavando a companheira morta. Amei o dentinho levemente acavalado do Gael Garcia. Ah, isso eu amo sempre.

A questão é que de hoje em diante terei maior condescendência com as minhas aftas. Obrigada Saramago, por mais essa lição de vida!

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