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– Você quer sentar?
– Quero.
{Na primeira palavra eu já me arrependi de ter achado que aquela menininha, por ter a cabeça levemente avantajada e feições muito adultas, parecia mais uma anã e não uma criança. Arrependida, lancei-me à socialização. Afinal de contas, sempre interajo com as crianças nas ruas, posto que sua sinceridade ácida desperta meus instintos maternos, e no mínimo, me alegra um bocado.}
– Como é seu nome?”
– Iriel
– Nossa que nome bonito
– E o seu?
– Tamy
[Cara feia, como só as crianças sabem fazer quando acham alguma coisa realmente ruim.]
– Porque? Não gostou do meu nome?
[Cara meiga, como só as crianças sabem fazer quando vêem que precisam agradar]
– Não. Achei bonito.
– Aquele é seu pai, Iriel?
– Hunrum.
– E você mora com o papai?
– Não, meu pai é separado. Eu moro com a minha mãe, lá em Flexal.
– E seu pai veio te buscar pra passear no fim de semana?
– É. ele me levou lá no Blanco Blasi, (imagino que seja a agência bancária) que ele trabalha lá
– Hum. E você já estuda?
– Já. Eu to no nível dois. Eu estudo para ganhar dindin.
[Fico muda por um segundos diante da clarividência daquele ser.]
– Eu estudo bem aqui atrás.
[Aponto para a UFES. Estávamos no ponto de ônibus, em frente à antiga portaria central]
– É? Escola grande né?
– É. Bem grande.
– Eu tenho duas roupas dessas sabia?
[Um conjuntinho hiper laranja, daquelas cores que só ficam boas em crianças.]
– É. E como é o outro?
– O outro tem a blusa listrada, da Polly.
{ Pausa para reflexão teórica. A retro alimentação capitalista. A boneca venda as roupas parecidas com as que elas vestem. As roupas vendem as bonecas que estampam. Nada inovador. Enfim.}
– E você gosta muito da Polly?
– Gosto. Eu vou querer uma Páscoa com a bolsinha da Polly
[Corre para o pai, que observa os ônibus.]
– Papai! Eu vou querer uma páscoa com a bolsinha da Polly.
[Volta para o meu lado]
– Eu mando nele.
{Eu, entusiasmada com a oportunidade de lançar um manifesto de superioridade feminina.}
– Isso mesmo. Ele é homem, você uma menina, tem que mandar nele.
{Ok. Não foi um manifesto muito bem elaborado, mas ela não deve ultrapassar cinco anos, tive que objetivar para facilitar a compreensão.}
– Iriel, Eu acho que seu ônibus tá chegando. Olha lá como seu pai tá olhando.
[Ela vai ao encontro do pai. Me procura ávida para o último tchau. Entra no ônibus a tempo de gritar.]
– Tchau Tamy.
[Os transeuntes me olham, enquanto grito tchau de volta. Ignoro, duplamente, o que cada um deles tenha pensado.]
{O que importa é sentir que voltei leve para o Laboratório.}

 

A propósito: Vejam as loucuras que essa garotinha da foto faz no programa Sábado Animado do SBT.

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