Queimar fotos é um querer desumano. A destruição de uma ilusão, de quem continua pensando que pode guardar certos momentos. Eu, ao me libertar, acredito. Que posso queimar os momentos, assim como queimo as fotos.

Uma completa falta de bom-senso. Queimo momentos que sequer foram meus. Bons ou ruins, não foram meus. E meu egoísmo chega a seu ápice. Destruo, o que há de individual, por um copo de ilusão em cólera. Tudo não passa de cólera.

Eu sou uma mente doentia. Não gostasse tanto de bichos sairia a matar pessoas. Matar suas ilusões, falsas verdades, individualidades. Meu Deus, não vêem todos, que é tudo mentira!

E assim, eu ponho fogo na casa. Essa casa mal sustentada que é meu espírito. Pinto o cabelo e as unhas, e queimo fotografias. Mas há algo no fundo que me consola: de tão vulgar e de entranhas tão grotescas, se eu fosse um filme, seria Almodóvar.

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