Quando olho no espelho, vejo em meu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que sinto, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante do fato de não poder esquecer, nem entender.

Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo – uma coisa que entende. E eu, justamente por não entender, organizo. O que vem de mim, e o que vem dos outros. O que machuca e o que me faz rir de histeria e desgraça. Todas as coisas em pastas e subpastas, como um arquivo de computador.

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