Eu tenho um filho de um ano, fruto de uma gravidez indesejada. A gente precisa dar nome aos bois: não foi uma gravidez acidental, não foi uma gravidez não planejada, foi uma gravidez que eu não queria, num momento que eu não podia, graças a um descuido que eu considerava insignificante na época (acreditem: dá para engravidar com os descuidos mais estúpidos!) Indesejada, pois. O que não significa que eu tenha um filho indesejado hoje. Na verdade, o meu amor é tanto, meu orgulho é tanto, que eu sinto constantemente lágrimas quase chegarem aos meus olhos, quando eu paro para olhar para ele. Lágrimas de emoção e alegria, que fique claro.

Eu tenho um filho de um ano, fruto de uma gravidez indesejada e estou aqui defendendo a legalização do aborto. Hipocrisia? Incoerência? Porque eu não abortei então, se a minha gravidez era indesejada? Eu trabalho, tenho amigos, conheço pessoas, poderia perfeitamente conseguir algum método menos arriscado e ter me livrado do fardo de levar adiante uma gravidez indesejada. Porque, então, eu não fiz como eu digo que todas as mulheres deveriam ter o direito de fazer? Porque, afinal de contas, eu não abortei, se eu já era feminista na época e já defendia a legalização do aborto?

Se você espera uma resposta, não vai ter. Porque isso não interessa. Eu tive minhas razões, que foram só minhas, e ninguém tem o direito de achar que as razões que me levaram a ter um filho fruto de uma gravidez indesejada, possam ser aplicadas a outras mulheres. Eu não concedo meu exemplo a mais ninguém. Porque o que eu defendo é exatamente isso: que as mulheres tenham o direito de abortar, se assim acharem que será melhor para suas vidas. Que elas tenham domínio pleno e exclusivo sobre o próprio corpo e consequentemente sobre a gravidez que acontece no seu corpo, e somente nele. Eu defendo o básico, o que já deveria existir, o que não deveria ser contestado: a autonomia do corpo feminino. Para tudo, incluindo ter filhos ou não tê-los.

Assim como a minha experiência pessoal não importa, a de vocês também não interessa à questão. Não interessa se você não foi abortado, e hoje é uma pessoas bem-sucedida, mesmo a sua mãe tendo passado por tantos percalços. Porque a sua mãe não é todas as mulheres do mundo. Não interessa se você acredita em um Deus, que proverá o que essa mulher necessita para criar o seu filho, porque nem todas as mulheres do mundo partilham da sua crença. Não interessa se você acredita que o feto sendo gerado no útero dessa mulher é um ser com vida merecedor da mesma consideração que qualquer outro ser. Porque simplesmente não interessa o que você acha, o que você professa, o que você acredita, a menos que você seja a mulher grávida em questão.

Porque eu defendo a autonomia, inclusive para que uma mulher tenha um filho, a despeito de todas as dificuldades que a vida dela impõe, se assim ela o desejar. E seja amparada pelo Estado, da forma mais humana e profissional possível, durante sua gravidez, seu parto, puerpério e na criação de seu filho. E seja amparada da mesma forma, caso não queira continuar com a sua gravidez. Porque antes de ser uma grávida, toda mulher é um ser humano e uma cidadã. E antes de querer dizer o que as mulheres devem fazer com seu útero, a sociedade deveria pensar no que está fazendo com suas mulheres. E deveria garantir que somente nós tenhamos o direito de dizer o que faremos com nós mesmas.

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