Eu tenho um filho de um ano, fruto de uma gravidez indesejada. A gente precisa dar nome aos bois: não foi uma gravidez acidental, não foi uma gravidez não planejada, foi uma gravidez que eu não queria, num momento que eu não podia, graças a um descuido que eu considerava insignificante na época (acreditem: dá para engravidar com os descuidos mais estúpidos!) Indesejada, pois. O que não significa que eu tenha um filho indesejado hoje. Na verdade, o meu amor é tanto, meu orgulho é tanto, que eu sinto constantemente lágrimas quase chegarem aos meus olhos, quando eu paro para olhar para ele. Lágrimas de emoção e alegria, que fique claro.
Eu tenho um filho de um ano, fruto de uma gravidez indesejada e estou aqui defendendo a legalização do aborto. Hipocrisia? Incoerência? Porque eu não abortei então, se a minha gravidez era indesejada? Eu trabalho, tenho amigos, conheço pessoas, poderia perfeitamente conseguir algum método menos arriscado e ter me livrado do fardo de levar adiante uma gravidez indesejada. Porque, então, eu não fiz como eu digo que todas as mulheres deveriam ter o direito de fazer? Porque, afinal de contas, eu não abortei, se eu já era feminista na época e já defendia a legalização do aborto?
Se você espera uma resposta, não vai ter. Porque isso não interessa. Eu tive minhas razões, que foram só minhas, e ninguém tem o direito de achar que as razões que me levaram a ter um filho fruto de uma gravidez indesejada, possam ser aplicadas a outras mulheres. Eu não concedo meu exemplo a mais ninguém. Porque o que eu defendo é exatamente isso: que as mulheres tenham o direito de abortar, se assim acharem que será melhor para suas vidas. Que elas tenham domínio pleno e exclusivo sobre o próprio corpo e consequentemente sobre a gravidez que acontece no seu corpo, e somente nele. Eu defendo o básico, o que já deveria existir, o que não deveria ser contestado: a autonomia do corpo feminino. Para tudo, incluindo ter filhos ou não tê-los.
Assim como a minha experiência pessoal não importa, a de vocês também não interessa à questão. Não interessa se você não foi abortado, e hoje é uma pessoas bem-sucedida, mesmo a sua mãe tendo passado por tantos percalços. Porque a sua mãe não é todas as mulheres do mundo. Não interessa se você acredita em um Deus, que proverá o que essa mulher necessita para criar o seu filho, porque nem todas as mulheres do mundo partilham da sua crença. Não interessa se você acredita que o feto sendo gerado no útero dessa mulher é um ser com vida merecedor da mesma consideração que qualquer outro ser. Porque simplesmente não interessa o que você acha, o que você professa, o que você acredita, a menos que você seja a mulher grávida em questão.
Porque eu defendo a autonomia, inclusive para que uma mulher tenha um filho, a despeito de todas as dificuldades que a vida dela impõe, se assim ela o desejar. E seja amparada pelo Estado, da forma mais humana e profissional possível, durante sua gravidez, seu parto, puerpério e na criação de seu filho. E seja amparada da mesma forma, caso não queira continuar com a sua gravidez. Porque antes de ser uma grávida, toda mulher é um ser humano e uma cidadã. E antes de querer dizer o que as mulheres devem fazer com seu útero, a sociedade deveria pensar no que está fazendo com suas mulheres. E deveria garantir que somente nós tenhamos o direito de dizer o que faremos com nós mesmas.

texto bem escrito, levando em conta seu ponto de vista. é só o seu ponto de vista. Infelizmente a vida gerada nos úteros desprecavidos por aí não têm direito a falar. Ainda não podem dizer, porque vcs não devem me matar! Assim poderiamos ouvir os 2 lados.
Bom, o seu comentário também é só o seu ponto de vista, correto? Porque a gente não deixa então, cada mulher ter direito a ter o sue ponto de vista e segui-lo?
Ei, Tâmara.
Assunto complicado esse que você escolheu debater garota. Acredito mesmo que você deve estar sofrendo muitos ataques por causa de suas posições. Poucas pessoas conseguem fazer um debate de alto nível sobre algum assunto. Na maioria das vezes opta-se por achincalhar, ridicularizar e rotular o discordante do que tentar apresentar contra argumentos que venham enriquecer o debate (Os dois lados fazem isso). Acho que seja possível discordar em alto nível sobre um determinado tema. Um dos livros mais interessantes que eu li chama-se “Em que creem os que não creem” livro do Cardeal católico Carlo Martini e do ateu Umberto Eco. Eles discordam de quase tudo mas depois de ler o livro, saímos maior do que entramos, pois a sofisticação intelectual dos envolvidos permite isso.
Começo dizendo que discordo de muita coisa que você disse. Também lhe digo que não sei se minhas posições são as corretas mas são as que eu acredito. Também acredito na sua honestidade intelectual. Primeiramente gostaria de dizer que não defendo as minhas posições baseados em um dogma religioso (Esse é um ataque típico que pessoas anti-aborto sofre). Minhas posições não são uma verdade inacabada. Trabalho com pesquisa em neurociências e posso te dizer que minhas posições mais restritivas a respeito do assunto aborto é uma consequência desta experiência. Digo-lhe que qualquer que seja a posição que você defenda ela estará numa linha cinzenta onde existe muitas definições arbitrárias vindo dos dois lados. A razão do problema é simples. Ninguém consegue definir o início da vida, principalmente porque a vida é um processo. Impossível definir um inicio. dai a razão dos nossos problemas.
Você apresenta como um dos argumentos para defender o aborto o fato da criança depender da mãe para sobreviver. Acho esse argumento muito limitado porque mesmo depois que nasce a criança depende de cuidados externos para sobreviver. Num primeiro momento depende do seu leite materno exclusivamente e se você não fornecer esse fluido que sai do seu corpo ele morre (Acho que se você fosse elaborar uma legislação de aborto proibiria o infanticídio). Ou seja, o bebê continua dependendo exclusivamente de você mesmo depois que nasce. Dai acho que esse argumento seu não é tão universalista. Eu, que sou homem, poderia alegar que não pago pensão para um filho por causa do meu direito de ser preguiçoso. E como você muito bem sabe, não há nada mais “egoísta” que uma criança. Ela suga muito da nossa energia e por um bom tempo. Quanto a questão da autonomia sobre o corpo, acho que ela funciona até certo ponto. Você não é livre por exemplo, para vender um de seus pulmões, um de seus rins ou o seu sangue para alguém que queira compra-lo, mesmo que ele seja só seu. Ou seja, essa autonomia sobre o corpo é meio relativa. Não podemos decidir com toda essa autonomia sobre o que fazemos com nosso corpo. Li hoje na folha que um garoto de 18 anos vendeu um de seus rins para comprar um Ipad. Até na China contemporânea (Moderna jamais) isso é rejeitado. A polícia prendeu os compradores e estuda uma punição para o vendedor.
Quanto a questão das roupas curtas, concordo com você. Nada justifica o estupro e a violência sexual. Não gosto de mulheres de roupa curta. Quase sempre é vulgar e feio. Mas defendo o direito das pessoas serem vulgares. Acho que na questão da gravidez os dois lados tem que serem ouvidos. Pai e mãe. Mesmo que num primeiro momento a gravidez seja mais onerosa para a mulher. Tenho duas filhas que foram planejadas, mas confesso que foi e ainda é, muito trabalhoso cuidar delas. Isso impacta diretamente em nossas vidas. Não foram poucas as vezes que acordamos de madrugada para acalenta-las. Trabalhamos mais do que poderíamos para sustenta-las. Abrimos mão de viagens. Se tivesse tido um filho durante minha faculdade, sei que certamente isso afetaria minha carreira. Provavelmente não teria feito nem uma pós graduação. Isso teria sido cruel? Claro, mas acho que a criança é a unica inocente. Acho que atualmente impera muito a cultura da inconsequência. Suponhamos o seguinte. Caso seja o homem que queira que a mulher interrompa a gravidez (Acho que isso aconteceria na maioria dos casos), você acha que o homem tem direito de exigir isso? Se não, seria justo obrigar alguém que não queira ser pai a ser? Confesso que esta é só uma hipótese que ventilo, pois sou a favor de nossa legislação atual que permite aborto em casos de estupro, risco de vida para a mãe e acho que a lei deveria incluir também casos de anencefalia. Alguém que não tem cérebro não pode ser chamado de ser vivo (diferente do que se diz, nos primeiros 15 dias,o feto normal já tem atividade cerebral).
Como te disse anteriormente, um bebê não sobrevive sem a disponibilidade de alguém para os devidos cuidados parentais até uns 4 anos após o nascimento. Ou seja ele continua dependendo de uma outra vida para existir.
PS. Um comentário sobre a série. Para um casamento dar certo o amor é necessário, mas ainda sim é muito pouco. Precisa bem mais que isso. Não faz sentido abrir mão de seus valores fundamentais para viver com alguém. Viver com alguém é escolha os filhos que nascem do encontro é obrigação. Acho que neste caso teve muita esperteza. Um achava que ia mudar o outro em uma questão fundamental para ambos mas que são irreconciliáveis. Não deveriam ter se casado.
Primeiro de tudo, Luiz, muito obrigado por usar o termo anti-aborto, porque o tão usado pró-vida é uma falácia, você há de concordar. Pró-vida todos somos, a diferença é de que vida estamos falando. Como você mesmo disso, tentar definir quando se começa a vida é uma tarefa muito arriscada, justamente porque isso muda ao gosto do freguês, religiões diferentes, pesquisadores diferentes, médicos diferentes te darão respostas diferentes. Mas eu tenho um exmeplo interessante: sabe qual o limite para um aborto no caso de estupro? 22 semanas. Porque esse é um tempo limite considerado para que seja feito um procedimento seguro PARA A MULHER. Veja a diferença: estamos tratando portanto da vida dessa mulher que precisa de um aborto.
Na verdade, quando eu digo no texto que o FETO depende única e exclusivamente do corpo materno para SE DESENVOLVER, eu não apresento isso como um argumento para que o aborto seja legalizado. É apenas uma forma de demonstrar que não há como considerar o feto um ser autônomo, e que, portanto, a gravidez é um assunto da mulher, não do feto. E bebês nascidos não precisam exclusivamente da mãe, eles podem ser cuidados por qualquer pessoas, mesmo o leite materno pode ser substutído, apesar de, obviamente, ser o melhor alimento para o bebê.
Sobre a comparação com a retirada de um órgão, me perdoe, mas não faz o menor sentido. Você poderia ter usado a eutanásia, que daria mais certo. E eu te responderia que, na verdade, eu também acho que a eutanásia deveria ser legalizada, e a gente voltaria ao ponto de partida. A questão dos órgãos não é de autonomia do corpo, mas de mercantilização. De pessoas que compram órgãos das outras. É preciso proibir a venda, para se proibir a compra, que é uma coisa torpe.
Sobre a opinião do pai: sim, ela deve ser ouvida e ponderada, mas a decisão final é da mulher, porque ela é a grávida. Usando um exemplo não muito adequado, se houver um complicação no parto e ela morrer, o pai não morre junto, morre? Você diz que acha correto a permissão do aborto em caso de estupro e anencefalia, mas ao mesmo tempo defende que o feto é uma vida inocente. Quer dizer que a vida inocente de um bebê fruto de um estupro vale menos do que outras? Ele sim pode ser “morto”? Você não acha que isso tranforma a questão em sobre a sexualidade da mulher e não sobre a vida do feto? Se você é vítima de estupro, ok abortar se não quer ter o filho, mas se você transou com um desconhecido e a camisinha estorou, sofra as consequências?
Sobre “obrigar” um homem a ser pai contra a sua vontade, caso a mulher opte por continuar com a gravidez. Quando o bebê nasce, ele passa a ser um indíviduo autônomo, e então, a gente está falando dos direitos da criança e não da mulher. Dizer que o cara pode decidir se a mulher vai seguir ou não com a gravidez é dizer que ele pode mandar no corpo dela. E não pode. E não se esqueça que se a mulher opta pela continuação da gravidez, não somente passa a existir um pai, mas também uma mãe, que, na sociedade machista que a gente vive, ainda acaba ficando com a maior parte do trabalho de criação do bebê.
Sobre a série, eu concordo com você, em parte. Sim, é preciso mais do que amor. E sim, é burrice se casar esperando mudar o parceiro. Por outro lado, o que vale mais para ele? Ser pai: então, procure outra companheira. Continuar com sua mulher? Então, aceite os termos. Vamos ver como a coisas se desenrola né. Pelo menos, é um história ótima que a Shonda escreveu, rende muito para nós que somos fãs. Você também, ao que parece né…
Ei, Tamara.
Volto aqui para continuar a discussão sobre aborto. Primeiramente gostaria de tornar mais explícita a minha posição de aceitação do aborto nos casos de estupro. Acho sim que esse aborto é retirar uma “vida”, mas convenhamos que uma mulher estuprada não escolheu isso. Ou seja não houve sexo consensual. Houve um ato de extrema violência, física e psicológica. Nesse caso extremíssimo, acho que cabe aborto para evitar que a mãe seja vítima duas vezes. Primeiro do estupro, depois ser obrigada a cuidar do resultado desse crime. Também não sei como reagiria uma criança ao saber que é produto de um estupro. Defendo também o aborto quando a mãe corre risco real de perder a vida por causa da gravidez . Mas a minha posição só abrangeria esse casos extremos.
É verdade que o feto não é um ser autônomo. Um bebê de 1 mês também não tem autonomia. Um pessoa com síndrome de Down nunca terá autonomia. Se vivêssemos na selva, alguém com síndrome de Down provavelmente morreriam de fome. É esse o tipo de seleção natural que impera no reino dos animais não humanos. O que nos torna humano é a capacidade desenvolver as condições para deixarmos viver (ou salvar da morte) uma pessoa com síndrome de Down, mesmo que ela nunca venha a ter autonomia para viver sem a constante assistência de outro humano mais autônomo.
Acho que a comparação com a venda de órgãos faz algum sentido. A autonomia plena deveria permitir você fazer do seu corpo o que você quiser. Prostituição é uma prática de mercantilização do corpo. Faz sentido proibi-la? Quando você vende sua força de trabalho, você não estaria de alguma forma promovendo um processo de mercantilização de seu corpo? Imagine que uma fiscalização de rotina encontrasse pessoas trabalhando em regime de escravidão. Mas depois de autuados alguns escravizados dissessem que queria continuar a serem escravos. Neste caso a autonomia sobre seu corpo prevaleceria? Na minha opinião o mercantilismo não é por si só algo ruim. Algumas práticas mercantilistas é que são eticamente inaceitáveis, mesmo que os envolvidos concordem em pratica-las, como no caso da venda de órgãos. O trabalho escravo não constitui uma relação mercantilista. Talvez seja uma prática exploratória.
No entendimento da legislação atual tanto o embrião como o feto é um ser portador de direitos. Eu acho que entre mortos e feridos esta é a opção mais acertada. Reitero. É meu ponto de vista. Também vejo que cada vez mais a legislação estender direitos a outros seres, principalmente aos animais. Cresce cada dia movimentos vegetarianos e movimentos contrários a pesquisas com animais. Se a nossa sociedade está decidindo ampliar o direito a “vida” a seres de outras espécies, seria adequado negar esse direito a um feto?
Eu não acho que a decisão de levar uma gravidez em frente deva ser tratada como uma mera decisão pessoal. Acho que em pouquíssimas semanas de gravidez já está ali um terceiro envolvido. Não sou contra políticas de natalidade. Pelo contrário, sou muito a favor. Defendo o uso de todos os métodos disponíveis, principalmente o mais seguro deles, camisinha de boa qualidade. Caso fure podemos recorrer a pilula do dia seguinte. Eu e minha esposa sempre usamos essa técnica e acho que nunca estourou.
Acho também que temos que ter mais consciência sobre o que fazemos. Temos que ter em mente que sexo sempre implicará em risco de gravidez. Na natureza essa é a função do sexo. Só é prazeroso para sermos estimulados a faze-lo. Sexo como fonte exclusiva de prazer é um produto cultural. O nosso organismo está ali prontinho para reproduzir. Vamos a outro exemplo. caso você esqueça de trocar o pneu careca do seu carro e se envolva em um acidente onde alguém morre. Mesmo sendo uma fatalidade e você não tenha a intenção de matar uma pessoa, você é responsável solidária pelo que aconteceu. Ao sair de casa com um pneu careca você implicitamente assumiu o risco de matar alguém e deve responder criminalmente por isso, mesmo que seja um acidente. Ou seja, nossas atitudes mais banais pode produzir consequências muito severas mesmo contra nosso desejo. Na minha visão, a gravidez indesejada entra ai.
Mas caso aprove uma legislação que retire o direito do feto eu acho que a decisão de levar deve ser pensada de outra forma. Suponha o caso em que um homem não queira ser pai e o aborto seja permitido. Como ficaria? Em caso de uma legislação que permitisse aborto com 2 meses de gravidez. Seria dado ao homem o direito de recusar a paternidade caso ele fizesse isso antes de 2 meses? Uma legislação diferente disso não produziria uma distorção onde ser mãe uma escolha e pai uma obrigação? Não estou aqui dizendo que ser mãe é fácil. Longe disso. Acho que é muito complicado. Mas acho que ser pai de fato não é um processo tão fácil. É muito trabalhoso. Dei a sorte de casar e viver com uma mulher fantástica. Parceira mesmo. Mas como nem todos os homens são parceiros, confesso também que muitas mulheres não são. Vi que o ex jogador Tuta foi preso por não pagar pensão. Acho justo que seja mesmo. Mas porque defendo a responsabilidade plena e inalienável dos pais por causa do direito a vida. Mas não dá para perceber uma sacaneada com ele neste caso. O cara deixou de jogar futebol e os rendimentos caíram mas mesmo assim a ex-esposa entrou com diversas medidas protelatórias para evitar a revisão do valor da pensão (100 mil) ele acabou preso. Caso se pense em retirar direito do feto acho que toda a legislação sobre direito parental tem de ser discutida. Se o direito do feto nascer passa a ser uma questão de escolha e não mais de princípio, não faz sentido obrigar aquele cara que a camisinha estourou (do seu exemplo) a ser pai contra a vontade dele.
A justificativa do hipócrita sempre são os “seus motivos”. Minha filha, fruto de uma gravidez indesejada por mim, vai nascer este mês. Não tive a opção de escolher tê-la ou não, porque a minha ex-namorada me contou quando estava grávida de 14 semanas, o que tornaria o processo do aborto mais perigoso. Não vou deixar de amar o meu filho por isso, mas minha vida mudou completamente. Além de ter que me abster de milhões de coisas, ainda serei obrigado a ter um vínculo com ela pro resto da vida. Se no íníco nós dois tivéssemos conversado a respeito de interromper a gravidez e tudo tivesse sido feito com cautela, tudo seria muito mais fácil, não só pra mim, como pra ela. Não vamos morar junto. O bebê vai ficar com ela, e no fim das contas quem saiu no prejuízo foi ela mesma, por ter os “seus motivos” como você.
Tenho certeza que ela fez isso pra que ficásse-mos juntos e no entanto, não só piorou as coisas, como também incluiu um terceiro, inocente, na situação.
Deixa eu voltar num ponto: a gravidez acontece no corpo da mulher. Quanto a isso concordamos né? A questão é que, enquanto você vê o feto gerado neste corpo em primeiro lugar, eu vejo a mulher em primeiro lugar. Por quê? Porque ela já nasceu, já é autônoma, já tem condições e deveria ter o direito de tomar e de fazer decisões. É um abusrdo achar que os direitos do feto, como vida em potencial, devem ser levados em conta em detrimento dos direito dessa mulher. Enquanto você pensa no bebê que irá nascer dali a nove meses, eu penso primeiro nos nove meses em que esse bebê precisará ser gerado no corpo dessa mulher. O que vem antes, afinal? O abortamento se trata em primeira instância da interrupção de uma gravidez que acontece no corpo de uma mulher. Se trata de uma decisão a respeito do corpo feminino, portanto. E quem deve decidir sobre a gravidez, então, se não a dona deste corpo?
Quanto ao seu caso, em particular, defender que a mulher deve decidir se leva ou não uma gravidez adiante não equivale a dizer que a mulher pode decidir sozinha se vai engravidar. Eu não sei se as coisas aconteceram realmente da forma como você relata (é uma suposição sua né? Pelo o que eu entendi a mãe do seu filho nunca disse que fez isso de propósito e você jamais poderá ter certeza, realmente. Aliás, aí vai um toque: o que há de tão especial em você para te fazer pensar que alguém resolveu abrir mãe da sua autonomia, só para ter um filho, só pra tentar manter você ao seu lado. Há realmente indícios disso na sua relação ou vocÊ está supondo, baseado numa convenção absolutamente machista que apregoa que as mulheres fazem de tudo – inclusive engravidar – para “prender” um homem), mas deixa eu te contar um segredo: a legalização não mudaria nada o que aconteceu na sua vida. A sua namorada não seria obrigada a abortar, só porque você achou que seria o melhor para vocês dois. Ela “apenas” não seria mais criminalizada caso optasse por isso.
E outra coisa: não só a justificativa do hipócrita sempre é “os seus motivos”. A justificativa de qualquer um é. Mesmo quando a gente diz que está pensando nos outros, na verdade, a gente está pensando no que a gente acha que o outro acha. Ficou confuso, ou deu para entender? Então, você me achar hipócrita na verdade diz mais sobre você, do que sobre mim. O que você considera hipocrisia e porque eu me encaixo na sua concepção?
Você, sendo espírita, não acredita que o aborto vai contra a ideia de que tudo ocorre com um propósito, um pré-planejamento?
Por que não responde?
Porque eu tenho uma vida off-blog e a estava vivendo.
O que eu acredito não interessa, essa é a questão. Ou melhor, interessa apenas a mim mesma. Que direito eu tenho de querer uma lei baseada na minha convicção religiosa – pessoal, portanto – e que se aplique a todas as mulheres do Brasil? O que eu defendo é que toda mulher posa dispor do seu corpo de acordo com o que ELA acredita, o que não acontece hoje com a criminalização.
Mas Tâmara, você não acredita no que defende? Pelo texto parece que você realmente acredita que o melhor seria a mulher dispor do seu próprio corpo, o que não bate com a postura do espiritismo, que você também acredita. O blog é pessoal, para expor idéias suas, qual seria o problema de apontar essa dualidade que existe entre suas diferentes posturas?
Uma pena que não vá responder.
Nós não estamos falando de como eu acho que o espiritismo deveria tratar a questão. Nós estamos falando sobre como essa é uma questão que não deveria ser mediada pela religião. Nós estamos falando sobre o futuro dos corpos de milhões de mulheres sendo decidido por outras pessoas. O mote do meu texto é justamente sobre como a religião deveria estar a parte desta discussão LEGAL e você está tentando me levar por um caminho que é justamente o que eu rejeito no meu texto. Mas eu já disse isso, não? Eu já respondi. Só não é a resposta que você queria.
Tâmara, por que deletou o questionamento sobre o conflito de sua posição com a de sua religião? Por que não comenta a respeito?
Hipocrisia.
Eu não deletei. Você que é meio rápido demais e não esperou seu comentário ser aprovado. Ou seus muitos comentários né.
Sou completamnete a favor do aborto. Mesmo pq, aborto, pra mim, é tipo maconha: Ninguém dexa de fazer ou usar só pq é proibido. A questão é: Milhares de mulheres continuam morrendo por fazerem abortos sem nenhum tipo de assistencia médica, mulheres essas que acabam caindo na mão de açougueiros que só querem saber de dinheiro. Mulheres sensatas que decidem interromper uma gravidez. ISSO É ABSURDO! Se a gravidez é indesejada, então que ela não se conclua, pois a partir dai quem passa a sofrer diretamnente com essa situação é o bebê. A cada dia que passa, a vida sexual é iniciada mais e mais cedo, e o que se diz de uma garota de 14 anos que engravida de uma namoradinho de 15? Que ela é irresponsável? Que ela é vagabunda? Que bem feito pra ela? Bem, uma garota de 14 anos não é capaz de responde por si perante a lei. E isto é só uma exemplo. É como a Tâmara disse em comentários anteriores, uma criança fruto de um estupro não é menos criança fruto de uma camisinha estourada. E a mulher que sofreu o estupro, não é menos mulher que a mulher da camisinha estourada. O caso do aborto deve ser decidido de maneira RACIONAL e não RELIGIOSA. Ora, se fazer um aborto é culpa da mulher, num aborto espontâneo então o culpado seria Deus? Se aquela vida foi colocada ali por Deus, então por que foi tirada depois. E sendo assim, pq não a mulher decidir sobre o futuro de um filho que será SEU? Pra mim é mais ou menos assim: O ABORTO AINDA NÃO FOI LEGALIZADO PORQUE OS HOMENS NÃO PODEM ENGRAVIDAR.
muito pertinente seu texto, muito bom!
é complicado explicar pras pessoas que o problema não se concentra só na futura criança, mas também em uma série de outros fatores, pessoais e culturais, dentre os quais o que mais se destaca, pelo menos foi no meu caso, é o direito ao corpo.
até pra quem defende os direitos reprodutivos é difícil dissociar “gravidez indesejada” de “filho indesejado”, sendo que este nem sempre resulta do outro.
enfim, parabéns! muito bom mesmo! bjo!
Pois é, Mayra. Ainda é muito difícil para as pessoas entenderem que não é uma questão sobre o que “você acha” ou o que “você faria”, mas sim de respeitar que a decisão não é de ninguém mais além da mulher envolvida. Todo mundo sempre tem uma régua prontinha pra medir as atitudades individuais alheias né?